Mary e Max, Adam Elliot (Mary & Max, 2008)

Cotação: 70%

Eu me lembro quando as super-produções animadas falavam sobre amor, amizade, companherismo e etc. Arriscavam um humor bobô, uma mensagem clichê, alguns efeitos especiais e bam! chuva de confetes. O melhor amigo do protagonista (o eterno coadjuvante) era aquele cara meio idiota, mas que estava lá sempre para ajudá-lo. A mocinha quer sempre ensinar algo, é dócil, amável e mesmo que seja feia, no fim, todos estão caidinhos por ela.

Mary, a protagonista, encaixa-se no perfil de menina sofredora. O pai tem uma emprego monótono, mau remunerado e não tem tempo para a filha, prefere ficar entre seus animais empalhados. A mãe é viciada em cigarros, alcóolatra e rouba pequenas coisas (pega emprestado, como a filha retrata). Ela, é uma menina feinha, rejeitada no colégio e portadora de uma mancha horrível no meio da testa. Não possui um amigo se quer. Entretanto, aproveita as pequenas coisas da vida, ama ver seu desenho favorito, sentada no sofá com sua galinha de estimação e um pote de leite condensado. Presa na própria ignorância (afinal, ela é uma criança), Mary vê a vida incompleta, tudo a sua volta falha em funcionar.

Max é o espelho do fracasso. Gordo, sozinho (seus amigos são seus peixes dourados descartáveis, três caracóis de nomes peculiares, um papagaio, um gato caôlho e uma velha cega) e doente mental. Seus amores são seus jantares inventados e seus cachorro-quentes de chocolate. Ele sofre de síndrome de Asperger (clique aqui), sendo assim tudo a sua volta também não funciona. Não consegue entender os humanos. Como um ser é capaz de amar, enquanto esse mesmo é capaz de jogar uma bituca de cigarro no chão da rua? Porque jogam fora comida se há gente passando fome na Índia? Max não consegue encontrar a matemática precisa da sua vida nos outros, para ele não há uma explicação.

O filme retrata a troca de cartas entre esses dois personagens, de alguma forma muito semelhantes. De um lado, uma cidadezinha colorida (mas estranhamente corrompida) da Austrália.  Do outro, a cinzenta Nova Iorque. A infantilidade da animação ajuda a aumentar o humor negro que o filme constrói, tudo parece meleável e sincero. Ambos, com seus problemas não resolvidos, encontram no outro um porto seguro, uma forma de despejar toda a merda que tem dentro de si.

Max lida com sua incapacidade de interpretar os outros, junto com seu ódio pelos mesmo. Mary encontra nele, uma fonte de informações, mesmo que brutas, ela aprende a lapidá-las e evoluir como pessoa. Ela, infeliz com sua aparência, enfim (meio que sem querer), percebe que amar a si próprio é o principal. Acaba tornando-se uma mulher confiante, cheia de si e autosuficiente.

Entretanto, Max ainda vive no limiar entre o louco e o gênio. Sem conhecer o básico da vida humana: o amor, o sexo e a tristeza. Numa das cenas mais bonitas do filme, Max vê-se incapaz de derramar lágrimas, Mary então decidi enviar-lhe suas lágrimas. É de um lirismo delicado, doentio, mas muito tocante.

O filme nos mostra um fator novo na narrativa animada, um desconforto terrível. Se os antigos grandes filmes animados chamaram a atenção por conseguirem agradar tanto o público infatil quanto o adulto, Mary e Max não atinge tal proeza. É um retrato doente da vida de dois humanos a margem de tudo. Mas que com pequenos gestos são capazes de encontrar tudo que procuravam. O fim não é um conto de fadas, mas soa alegre mesmo que mórbido.

No fim das contas, temos outro filme com a fórmula supracitada. Mas quem é que vai querer levar o filho para ver esse filme?