Alice no País das Maravilhas (2010) dirigido por Tim Burton.

Eu sou um fã do cinema de Tim Burton. O primeiro filme  dele que eu vi, Edward Mãos-de-Tesoura, me assombrou durante boa parte da minha infância. Que crueldade fizeram com aquela criatura branca, um rapaz com cara de assustado (um Johnny Depp sem suas atuais afetações), sem saber porque estava no mundo. Sempre o vi como um monstro, um terror, o filme, no entanto, o via como um carinhoso menino preso na figura de demônio. Vai explicar isso para uma criança… Fiquei com a imagem de um diretor maldoso, o que afinal é uma grande verdade.

Em Ed Wood de 1994, talvez seu melhor filme, Johnny Depp (na sua melhor atuação com o diretor) vive o papel do pior diretor de todos os tempos. E, Burton, atrás das câmeras faz uma homenagem belíssima não só a Edward Wood, mas a todos os filmes toscos de monstro. Fica bem claro, que o cinema dele é feito disso, de tipos bizarros, criaturas cinzas (do tipo que circulam pela produção do Fever Ray), de um protagonista branco com olheiras negras.

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, define totalmente o estilo do cineasta. Uma mistura de suspense, com terror light, com personagens que são no mínimo fofos (e assustadores, feios, brancos). E ele soube levar Johnny Depp a outra baita atuação, vivendo Ichabob Crane. Dessa vez, Burton trouxe ação para dentro do seu cinema (que tornou-se mais ágil) e soube conduzir uma investigação perfeitamente (aprenda com ele, Guy Richie), sem exageiros de detalhes e informações desnecessárias. O resultado é um filme no ambiente Burton, no mundo escuro  cheio de névoa e raios.

Finalmente, Tim Burton resolveu lançar seu filme mais confuso e talvez o mais doentio. A Fantástica Fábrica de Chocolate, é um sofrimento só, criancinhas num mar de horror (e olha ai trovões, ambientes escuros e gente feia, branca com olheiras). De certa forma, é o ápice do sentimento carinhoso do diretor, é o mais fofinho de sua filmografia. Mas é uma festa muito estranha, eu não me sentiria confortável. É o longa mais doentio dele.

O menos acessível de sua lista o musical Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, temos Helena Bonham Carter (esposa do diretor) e Depp numa loucura, sanguinária e carinhosa. É um paradoxo total, e esse deve ser o motivo principal da minha paixão pelos filmes do diretor, a capacidade de sustentar duas visões totalmente adversas.

Alice no País das Maravilhas tem um pouquinho disso tudo, a protagonista é branca com olheiras negras, figuras bizarras circulam pela tela, há um tom de infantilidade na narrativa da história (como não teria?), Johnny Depp descontrolado, tem quase tudo (tem até esse maldito 3D, que está começando a me incomodar). Até a metade do filme, eu estava me divertindo, tudo parecia funcionar, até a atuação econômica deMia Wasikowska. Porém, o filme perde o controle, entramos numa guerra, com muitos nomes, citações e etc. Fiquei com medo de acabar assistindo um  O senhor dos anéis com personagens fofinhos e coloridos. Alice, a predestinada (ué não foi tudo por acaso?), salvaria o mundo subterrâneo do caos.

Ai vale notar outros defeitos do filme. A atuação sem graça da protagonista, as afetações extremamente exageradas de Bonham Carter e Depp, uma Anne Hathaway robótica, miss felicidade. Nada disso me impressiona. Entretanto, a imagem dos personagens foi muito bem desenhada: o gato, a engraçadíssima lebre, o coelho, os gêmeos e etc. Pelo menos um acerto: tudo é muito bonito e nos remete ao clássico da Disney.

Quando soube que o filme seria dirigido pelo Tim Burton, logo me veio a cabeça: “O livro de Caroll não podia ter caído em mãos melhores”. Há monstros, figuras estranhas, narguile, chá de cogumelo, viagens psicodélicas. É um livro muito alucinado. Quase bati o martelo dizendo que a película seria perfeita. O resultado podia ser pólido, limado ao extremo como o disco do The XX, e quem sabe teriamos menos gritos, batalhas mortais (um amigo meu que estava cansado do dia, dormiu nessa parte) e atores sem controle.

E ok, podia ser mais Burton e menos Disney. O próprio diretor deve saber disso. Mas as vezes somos obrigados a fazer o que não queremos. Quer um exemplo da capacidade do filme? Minha priminha de 7 anos adorou, mesmo sem entender muita coisa. É o poder das cores e dos sons e vai saber mais do que.