No DVD bônus dessa obra-prima chamada Meu Vizinho Totoro, Miyazaki diz: “essa é a visão que um menino da cidade tem de uma vila”. É engraçado que vasculhando meus cenários, percebo que minha visão de um vilarejo é tão parecido com a do filme.  E provavelmente baterá (ou bateu) com a sua. O gênio de Miyazaki, portanto, consegue elaborar um universo que ainda que contenha muito do que ele, homem, pensa, também consegue traçar atmosferas que são capazes de atingir o imaginário comum.

Aqui os temas são menos diversos e mais simplórios do que de Chihiro, que é sem dúvido o filme mais complexo do diretor. Essa simplicidade quase inocente, faz do filme ainda mais contagiante. Miyazaki retrata a infância dos tempos sem televisão (nas palavras do próprio), quando as crianças ainda corriam pelos campos e sujavam os pés. E mesmo sucinto, consegue lançar uma sequência de outros temas: o fim da infância, a amizade, o amor, a mitologia oriental e etc.

Também é interessante notar como o longa não constrói sua mágica através de um sonho louco. Aqui, os momentos de insanidade são mais discretos. O momento onírico fica por conta de uma lindíssima cena onde as duas meninas dançam com os seres da floresta e fazem sementes germinarem até tornarem gigantescas árvores (e ai vale lembrar de outro tema bastante discutido pelo diretor: a relação do homem com a natureza). “Foi um sonho, mas não foi” ambas brincam quando acordam no dia seguinte.

O filme trata de temas que ele voltaria a discutir em outros filmes – a natureza (em A Princesa Mononoke), a amizade (em Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar). Porém, aqui ele se deixa observar com olhos de criança. Com predileção pelo riso solto, gritos e momentos de pura diversão. É uma animação feita para crianças – de todas as idades (até 70 anos tá valendo) – diferente de outros filmes dele que exigem uma percepção maior. Ainda que mais explícito soa como um filme delicado, com seus valores escondidos por trás de um roteiro vagaroso.

Para mim, um eterno apaixonado pela infância, foi um encanto. Cenas bobinhas me levaram ao riso, pelo simples fato de soarem infantilóides. Como não se deixar levar pela cena que Mei encontra com Totoro pela primeira vez e os dois fazem uma competição de gritos? Ou quando a irmã mais velha simbolicamente empresta o guarda-chuva do pai para Totoro? É de uma sensibilidade ímpar. Miyazaki não é um velho de barba branca, é um personagem incrível desses, preso nesse nosso mundinho sem cor.

Meu Vizinho Totoro (1988) dirigido por Hayao Miyazaki.