Semana passada eu estava tenso. Confuso demais com milhões de pequenos problemas que aos poucos foram se tornando monstrengos. Precisando relaxar, ter um tempo só meu, assisti Um Corpo que Cai de Alfred Hitchcock. O filme, brilhante do início ao fim, me acertou como um sonho estranho, daqueles que eu não sei bem onde começam e onde terminam. Aliás, o fundamento principal de um sonho, é a incerteza. Dentro deles não sabemos de nada, não temos rosto, não sentimos gosto e nem cheiro. Os sonhos são como uma sopa do nosso inconsciente, mostrando aquilo que não sabiamos ou não queriamos saber. Eu que estou a um ano sem beber refrigerante, sonhei noite passada que tomava banho numa cachoeira de coca-cola. Desejo enrustido.

Daí que a premissa de A Origem do superestimado Chris Nolan, já me parece frágil apartir daí. E mostra, ao menos para mim, como até no campo dos delírios, o pragmatismo do diretor, tenta tornar tudo realista. Realista demais.

Assim que terminei de assistir ao esquema montado eficientemente por Nolan, fiquei imaginando qual teria sido a experiência dele ao assistir o clássico de Hitchcock. Ali o realismo e a loucura convivem lado a lado, confundem o espectador, nos coloca num transe, só para depois ter o prazer de mostrar a realidade. É uma trama que, aposto, Chris desejaria ter escrito.

O sucesso do filme prova uma realidade – sem brincadeiras – que ao menos para mim causa pavor. Ouvi num corredor da faculdade alguém dizer que este tinha sido o maior filme que já havia visto. Preferi não perguntar quais tinham sido os outros. Para mim, fica provado que as pessoas são mesmo interessadas em roteiros complexos, que os fazem ficar agressivamente tentado montar um trajeto na mente, que as confunde ao mesmo tempo que explica. E como explica! Pelo menos 30 minutos da película acompanhamos os personagens explicando tin-tin por tin-tin como funciona o roteiro mirabolante de Nolan. Dois deles, inclusive, repetem as ideias para deixar tudo claro. Me pergunto: cada a arte ai?

Como eu disse, o diretor de Batman, sempre foi mais obcecado pelos enigmas que consegue produzir, do que pelas imagens que seu cinema deveria construir. E não me entenda mal, os roteiros do moço são ótimos. Entretanto, entendo como bruta a forma que Nolan causa impacto com seus filmes –  complicar o que podia ser simples. E vale citar diretores que com simplicidade filmam com muito mais interesse e particularidade, o principal deles, Richard Linklater. Um exemplo forte é a relação do protagonista (vivido por Leonardo DiCaprio) com a falecida mulher, a parte mais interessante do filme, que acaba engolida por mais um dos jogos de Nolan.

É o tipo de trama que devido a paciência dos espectadores se torna “genial”. Mas o que impressiona nisso? A capacidade de fazer você pensar e entender exatamente o que o roteiro propõe? Nolan não conhece sutilezas, vai polindo cada detalhe solto até conseguir explicar tudo. E isso nem seria um problema se ele não resolve fazer isso tão didaticamente. Os diálogos entre Mr. Cobb e a personagem de Ellen Page vivem praticamente disso.

Antes que digam que tenho uma certa birra com o diretor, o que nem é verdade pois tenho muita simpatia pelos Batmans dele (ainda que eles sofram dos mesmo problemas de A Origem), ressalto que o filme me convence em dois aspectos. Primeiro, vejo a intentona de tentar tornar tudo realista como uma tentativa honesta de definir um estilo e nisso o filme se prova bem eficaz. Depois, os efeitos de cenas como a que J. Gordon Levitt (o melhor do filme) anda pelas paredes, são realmente impressionantes.

Enxergo com olhos triste  as discussões sobre o filme, pois vejo que as pessoas estão cada vez menos preocupadas em assistir arte, e por isso acabam comprando ideias tão confusas. A principal discussão que ouvi sobre o filme tentava descobrir se no final tudo não tinha passado de um sonho. Me parece sem sentido, mas o próprio Nolan disse que as pessoas tendem a procurar detalhes onde não existem. A esses que se prendem a essa conversa indico o filme do Hitchcock, a pergunta não será “foi mesmo um sonho?”, e sim “porque ele sonhou?”.

A Origem (2010) dirigido por Christopher Nolan.