Acreditem ou não, Coppola cresceu, ainda que esteja escondida atrás do escudo que criou para si desde Encontros e Desencontros (2003). A diretora enfim amadurece a câmera.

O tema por trás de Um Lugar Qualquer quase parece invisível na forma sutil como ela filma. E o que diferencia a filha de Francis Ford Coppola dos demais diretores do seu tempo fica ainda mais claro aqui. Coppola sabe exatamente o que está fazendo, das imagens a trilha sonora, tudo faz sentido – está ali por algum motivo.

O longa abre como um demorada sequência de cenas do cotidiano. Logo a primeira fez o público da sala perder a paciência, já no começo mostrava as suas asas –  monstro engraçadinho. Em Encontros e Desencontros, ela filma o tédio pelo foco da solidão particular. Maria Antonieta (2006) – além da crítica quase vulgar aos filmes de época – nos apresenta uma Coppola preocupada em filmar a necessidade de fuga. O novo é a visão geral, tedioso até na levada. Cuidadoso como um filme francês. Fluído como um disco do Phoenix.

Na condução do filme ela repete cenas, esticas outras, espreguiça-se entre uma e outra brincadeira. Mais o principal: não se excede. Não há gorduras, é um filme sem disperdícios. É cinema por cinema. Não é uma obra comercial e nem quer provar nada ao mundo. Quer ser o que é: cinema.

A câmera passeia quieta. Surge apenas quando ela faz o que gosta: dar uma pontada em alguma cultura. E ainda soa como um reflexo de Loveless (perfeccionista e sacana), mostra a coerência como ela encara as sequências que decide filmar. É detalista até nas descobertas mais simples: o protagonista só percebe a crise quando entra em contato com a filha (uma Elle Fanning encantadora, atuação de gente grande).

Como andaram dizendo, encontra ritmo nos próprios tiques. Tiques que estão por toda parte por sinal: na brincadeira com os italianos, na cutucada sutil aos idosos, no final até surpreendente (e é impressionante como Coppola quase arruina os filmes nas cenas finais, mas se recupera antes de perder o fôlego). Mas do que isso, ela encontra uma das suas melhores cenas. Já é uma tendência na filmografia dela, uma cena de  escapatória ao som de um indie que foge das amarras. Antes Scarlett refletia as luzes de Tóquio ao som de Sometimes do My Bloody Valentine, depois Antonieta corria freneticamente no palácio ao som de What Ever Happened do Strokes. Agora dentro da imensidão azul, pai e filha brincam enquanto toca I’ll Try Anything Once do Julian Casablanca.

A diretora está segura do que quer. E parece não se importar como que o público pensa. Um Lugar Qualquer é um filme tão pessoal, que soa como se ela filmasse para si mesma. Eu nem mesmo me supreendi quando depois do belo corte final, aos poucos ia surgindo das névoas Love Like a Sunset. Estamos de volta ao princípio.

Um Lugar Qualquer (2010) dirigido por Sofia Coppola.