“O céu é superestimado: não há nada lá” diz o fantasma ao moribundo Boonmee. E o impacto é ainda maior do que da primeira vez. Me senti quase na obrigação de escrever um texto mais extenso depois do meu segundo contado com o filme. Primeiro, minha aventura.

Segunda-feira, dia morno e sem graça. Entretanto, acordei com uma idéia madura na cabeça: eu iria ao cinema sozinho pela primeira vez. Queria um cinema recluso, quase isolado, um lugar habitado somente por fantasmas. Sou tímido, não queria me sentar entre uma multidão.

Minha primeira opção era ir ao cinema próximo a minha casa, onde passava o novo do Iñarritu. Me arriscar nessa? Achei melhor não. Foi então que encontrei Tio Boonmee as 5 horas, num shopping de grande circulação. Mas eu tinha certeza, não havia risco, ninguém vai assistir aquele filme de tarde além de mim. Cheguei 10 minutos antes, apenas quatro lugares comprados. Na entrada um rapaz observava atônico o cartaz do filme ostentando um macacão de olhos avermelhados. Não consegui deixar de demostrar interesse no olhar engraçado que ele lançava para a imagem. Já tinha valido metade da aventura.

Não tinha fila. Fui direto ao homem que vende os ingressos. Um pro Boonmee, por favor.

Tomei o papel nas mãos e fui em direção às salas. Quase ninguém sentado esperando os filmes do lado de fora. Dentro, um vácuo assustador. Logo depois dois casais entraram. Duas gerações, um casal novinho (deviam ter 20 e poucos anos, no máximo) e outro de idosos. Os primeiros sentaram logo atrás de mim, enquanto os outros ficaram mais próximos da telona. Todos permaneceram calados durante toda a exibição, com exceção da menina de traz que soltou um riso seco na cena em que a princesa é deflorada por um bagre.

Começa o filme. O silêncio e a escuridão tomam conta da sala. O ar-condicionado soprava frio. Esqueci meu casaco! Me encolhi na cadeira, os braços bem juntos e os olhos fixos, hipnotizados pela sequência inicial onde um boi foge rumo a floresta. Primeiro detalhe: do momento que o som do filme começa e durante quase toda a sessão, somos acompanhos por sons de grilhos e outros insetos, somos completamente mergulhados no universo rural e mitólogico do longa.

Na segunda vez, me interessei em observar as frases de efeito e as expressões dos personagens. Ainda me choca como Boonmee olha fraternalmente o filho na forma de macaco-fantasma. Ou como toca sua esposa como se ela ainda estivesse ali em carne-e-osso. O espanto dos vivos ao assistir um corpo se materializar numa cadeira é mais pela dúvida sobre quem está ali do que pelo fato de se depararem com um fantasma. E ai percebo porque gosto tanto do filme: Apichatpong trata a história como se todos ali pertencem àquele plano, todos ali estão apenas jantando e conversando sobre a luz de lanterna.

Mais interessante é como me deixei levar pelo clima poltergaistico da obra. Durante a cena inteira do jantar viajei dentro da sala de cinema. A escuridão, inclusive, namorava com a presença daqueles seres fantásticos. Eu era somente mais um fantasma flutuando ali. Catatônico enquanto o diretor tailandês filmava a rotina.

Me interessa ainda mais a forma como ele aos poucos tenta nos provar a veracidade com que o filme trata os seus temas. Pode ser na conversa entre a Tia Jen e o Tio Boonmee em que ele declara ter matado muitos comunistas e insetos e por isso está doente. Ou quando o filho explica por que se tornou um macaco-fantasma. Tudo real? São tão naturais quanto qualquer outra cena do filme.

Ele inclusive se deixa delirar ainda mais. A história da princesa que deseja sua beleza de volta, que na primeira vez que assisti me pareceu desconexa com a história principal, agora me soou como poesia. Suas visões são ou não reais? Apichatpong nos deixa duvidar pelo menos uma vez.

O principal dessa obra-prima é como o ambiente, as crenças, os sons da natureza, se misturam num painel uniforme. É um filme reto, sem arrestas. Não nos deixa apagar por um segundo, mesmo quando parece caminhar para o nada. Como bem reparou o bloggeiro Bernardo Versiani, Tio Boonmee não é um filme sobre morte, é um filme sobre vida: durante seu percurso ou depois da morte. A cena em que o fastasma da esposa diz ao assustado Boonmee para não procurá-la no céu, pois não há nada lá, soa como resumo da obra. Num momento descontraído, Boonmee chega a dizer para a Tia Jen que voltará depois da morte para ajudá-la a cuidar da fazenda. Afinal como explicam: fantasmas não estão ligados a lugares, mas a pessoas.

Ao fim do filme, a sala da minha sessão solitária era um vazio negro. Um silêncio doloroso. Hipnotizados pelos surtos, os cinco ali ficaram calados. Talvez esperando um fantasma baixar ali. Talvez esperando algo mais. Talvez não esperando nada. Sei que levantei e sem olhar para traz sai da sala. Fui ao Yogoberry, tomei um yogurt de chá-verde com morangos e balas de geléia. E voltei para casa ainda em delírio, estranhamente imerso, zonzo com aquele ambiente. De noite, sonhei com a sessão e o som do campo me acompanhou até a manhã seguinte. A viagem ainda não tinha terminado.

Tio Boonmee (2010) dirigido por Apichatpong Weerashetakul.