Não conheço o original, mas pelo que li (e pela própria palavra dos irmãos) não se tratava de um faroeste marcante. Entretanto, o roteiro interessava bastante Joel e Ethan, que por fim resolveram dar um novo olhar a um filme de sua infância. Difícil no entanto, novamente partindo do que li, encarar o novo como uma reviravolta, trata-se de um western tradicional que segue todas as regras do manual.

Para muitos irá soar como simplicidade em demasia, algo que para mim explica muito sobre a forma como os dois filmam. Vamos por partes. Antes de mais nada, não vejo problema em seguir com rigor um formato conhecido de cinema. Depois, acredito que diretores capazes de dar voltas e encontrar pequenos nuances em novas experiências sobre um estilo seu já definido é algo de se admirar. Bons diretores (Burton, Allen) acabam taxados de repetitivos por mera falta de observação. E ai é preciso reparar que não é um defeito dos filmes e sim daqueles incapazes de perceber sutilezas.

O longa narra a história de Mattie Ross, interpretada por Hailee Steinfeld (numa das melhores atuações do ano e a melhor entre as indicadas a melhor atriz coadjuvante), que está em busca de um homem capaz de acompanhá-la numa missão de vingança, para dar fim no sujeito que assassinou seu pai, uma vez que a lei parece indiferente ao caso. É então que ela encontra Rooster Cogburn, um policial beberão interpretado por Jeff Brigdes (também excelente) e os dois partem acompanhados por LaBouef (Matt Damon) atrás do fugitivo.

Daí que a película já é diferente da obra-prima Onde os Fracos Não Tem Vez por seguir os perseguidores ao invés do perseguido. Aquele filme explorava os mínimos detalhes do comportamento de um louco, enquanto envenenava a narrativa de tensão. Não se fazia necessário explicações, a busca ali não tinha objetivo, era só uma busca. Bravura Indômita é narrado pelo foco inverso, não sabemos bem como as coisas acontecerão e quando acontecerão.

Muito além da perseguição que culmina numa sequência de violência típica dos irmãos, está todo o pano-de-fundo do filme. A começar pelos personagens. Os dois principais aparentam a princípio serem criaturas frias, mas ao longo da história percebemos a profundidade e a ternura com que são analisados. A menina inocente, mas corajosa. O oficial turrão, mas fiel. Seriam quase esteriótipos de um filme de ação se não tivessem suas histórias tão bem traçadas.

Toda a primeira metade do longa apresenta em cada cantinho alguma marca dos Coen. O humor negro, a predileção por metáforas, o cuidado com a apresentação de cada personagem. A cena da forca em praça pública, por exemplo, mostra como os dois acham rapidamente uma saída inteligente para uma situação comum – no caso, o preconceito com que os indígenas eram tratados antigamente.

O principal do filme está, no entanto, na estética western que os dois incorporam com perfeição. Há um pouco de tudo: o começo marcado por uma sina, as músicas que se repetem, o som vitorioso após o assassinato e etc. Sim, está tudo lá no manual, mas há muito mais nas entrelinhas, cabe a quem assiste perceber ou então seguir a fazer comentários genéricos sobre belos filmes.

Bravura Indômita (2010) dirigido por Joel e Ethan Coen.