O longa, baseado numa adaptação do livro de Daniel Woodrell, conta a história de Ree Dolly (vivida pela bela Jennifer Lawrence, que está tão bem quanto Natalie Portman – infelizmente ninguém vai lembrar dela esse ano), uma menina de 17 anos que vive em função da família, cuidando da casa e dos dois irmãos pequenos devido a doença da mãe. A família Dolly vive numa cidade pequena isolada da vida urbana, envolvidos num clima nebuloso e frio. Ree não consegue mais dar conta das despesas e de todas as obrigações, principalmente depois do desaparecimento do pai – aparentemente envolvido com a fabricação de drogas.

Aos poucos somos levados de casa em casa para procurar informações sobre o paradeiro do pai de Ree. Quanto mais a protagonista busca mais nós ficamos desarmados, cada vez mais curiosos em saber sobre os membros da família.

Dentro do mundinho partícular do Clã Dolly (que aos poucos vai se tornando maior), encontramos um grupo organizado, capaz de qualquer coisa para manter o equilíbrio do negócio da família. E o que há de mais interessante no filme é a incerteza com que tratamos os personagens. Não sabemos do que eles são capazes nos seus mínimos atos: ora ajudam monetariamente a pobre jovem, ora surtam ao se depararem com a insistente investida da menina na procura de seu pai.

Outro foco interessante é que temos uma heroína mulher enfrentando um universo machista – reparem bem, durante as cenas de procura é sempre uma mulher que está submetida às informações que o marido pode oferecer, nenhuma toma decisão sem antes consultar os homens. Em certo ponto da narrativa o abuso desse fator, principalmente quando somado aos afazeres da adolescente, enfraquecem um pouco a obra, que perde a aparência gélida e vira água. Mas por sorte, a diretora não apela tanto para isso.

Para falar a verdade não sei bem porque gostei desse aqui. É um filme bem correto, com um final pálido e pouco a oferecer na narrativa. No entanto, me interessa muito a forma como a diretora ajusta o que sabe sobre esse tipo de história. E mesmo quando joga sobre nós ingredientes de um dramalhão, consegue ter a sensibilidade de deixar as cenas seguirem o curso natural (repare na cena em que Ree ensina os irmãos a caçar esquilos, a câmera estática, curiosa).

Embora ele não avance mais do que se espera desse tipo de filme, ao menos arrisca com coragem algumas cenas mais grosseiras. Era difícil, por exemplo, imaginar a sequência em que as mãos do cadáver são arrancadas. A frieza com que alguns personagens encaram os temas do filme, pode explicar ao menos um pouquinho o porquê de eu ter mergulhado no clima da película. Não deve ganhar o Oscar, mas eu o acho superior a “certos” candidatos complexíssimos.

Inverna da Alma (2010) dirigido por Debra Granik.