Os dias que precedem o Oscar sempre me causam agonia. Os culpados? Os favoritos. Todo ano é a mesma coisa, sempre há alguma categoria praticamente definida. Ano passado sofremos com a vitória de Sandra Bullock na categoria de melhor atriz. Esse ano, no entanto, teremos (muito provavelmente) um prêmio a comemorar: o de melhor atriz para Natalie Portman.

A minha agonia desse ano chama-se O Discurso do Rei. É, parece inevitável, o filme de Hooper deve mesmo levar o careca para casa. Assim como Firth deve levar o de melhor ator e Hooper melhor diretor.

Vamos por partes, tem muito coisa que eu quero falar sobre isso. Para começar, acho um retrocesso tamanho da academia que a três anos premiava Onde os Fracos Não Tem Vez como o melhor filme, uma supresa quando se olha para os antigos vencedores. O oscar ficava limitado a superproduções, filmes trágicos e rasos (muito obrigado Iñarritu) e purpurina. Em 2009, no entanto, outra supresa: o belo filme de Kathryn Bigelow ultrapassou o favoritismo do também bom – mas incompleto – Avatar de James Cameron. A vitória do filme independente – e hoje em dia parece ser um crime dizer isso.

Daí que me deparo com esse filme aqui. Um longa que a crítica chama de “filme de atores” e que os defensores dizem ser uma película marcada por uma boa história. Sentei-me diante da tela e nada me convenceu. Ok, Firth se esforça adoidado para dar algum prisma diferenciado ao seu fechado personagem, mas nada além disso – a sempre boa Bonham Carter, está apática. Para não dizer que o filme é um total fracasso, admiro como o diretor analisa o processo do tratamento – e estes são os melhores momentos da exibição. As demais cenas são encenações que Hooper filma com total frieza, conduzindo um típico filme de Oscar. Olhe o tema: superação. Olhe o desfecho e tente não ficar inconformado com a total falta de verossimilhança. O país entrando na guerra e o povo preocupado com o discurso do rei.

A fórmula parece envenenar todo os cantos. Com a direção na marcha lenta, filmam o primeiro encontro entre os personagens marcado por um desconforto, depois uma briga e a união. Já viu isso antes, não é? E a boa história? Um conto sobre a amizade entre o rei bondoso e o médico inspirado? São retratos de personagens planos, que parecem viver de simplórias características.

Para completar: o pano de fundo histórico. Hooper leu a cartilha “como vencer o Oscar” e adaptou a um roteiro banal, frágil demais quando se observa a olho nu. Mas engana, a prova disso é o sucesso de público.

Estamos diante do drama histórico que fará a academia voltar ao formato de sempre. No dia 27 só ficarei feliz com uma coisa: Firth sendo reconhecido. Fora isso, só tenho a lamentar por esse passo para trás.

O Discurso do Rei (2010) dirigido por Tom Hooper.