Começa com cheiro de nostalgia. A volta de um heroi à cidade que o fez se tornar o que é hoje, lá ele fez seu nome e conheceu sua esposa. Só pelo início percebemos que a principal força de O Homem que Matou o Facínora emana da história, do passado. É através da memória e somente dela que se conta a anedóta, não há registros. James Stewart se senta com os membros do jornal e de prontidão começa a contar o que sua mente guardou da sua chegada à curiosa Shinbone.

A princípio soa como um western bem comum, um exercício do patriotismo sempre presente nos filmes do Ford. No entanto, logo percebemos que o discurso do longa gira em torno do debate entre os personagens emblema, de um lado John Wayne e a lei da arma, do outro Stewart e a lei expressa. O que mais me interessa é como Ford apresenta os dois lados. Para ele ambos são a expressão de defesa dos direitos, tanto o lado mais rústico quanto o ideal são válidos. Quase um estudo sobre a projeção da necessidade de justiça e sua força sobre as ações dos seres humanos.

Muito além do discurso genial do filme, Ford coleciona alguns dos seus melhores personagens e cenas. Como esquecer do xerife gordo e covarde ou da jovem cozinheira que não sabia ler? Ou melhor, como é possível esquecer a brilhante cena em que James Stewart apaga do quadro negro os dizeres: “Educação é a base da lei e da ordem”? Ou das várias vezes que Wayne chama Stewart de pilgrim?

O mais significante é como este longa encara a lembrança. Afinal de contas, nunca fica claro quem matou Liberty Valence. Pode ter sido a bala de um quanto de outro. Mas é ai que surge a emblemática frase: “quando a lenda vira fato, publique a lenda”. O registro da maior história já contada fica somente na mente de quem presenciou. Eternamente fadada a ser o que é: uma anedóta, um conto de faroeste ou talvez uma mentira bem contada.

Não parece, mas aquela cena final em que Stewart vira-se para sua esposa e diz que gostaria muito de voltar a viver em Shinbone, reflete muito o espírito do filme. Ali Ford retrata a saudade, uma saudade de quem não quer virar a página. E com esse sentimento à flor da pele faz seu melhor filme, uma obra-prima que ameaça nunca mais ser esquecida por quem assiste. De fato não dá para esquecer.

O Homem que Matou o Facínora (1963) dirigido por John Ford.