Fazer comédia que vende pro público, hoje em dia, parece um sistema bem simples. E isso, pelo menos para uma determinada faixa-etária, não significar sujar o longa com imagens pesadas, ainda que alguns apelem para esse tipo de estratégia. As comédias que fizeram mais sucesso nos últimos anos foram as mais retas, ancoradas num formato bem convencional de se contar história (os filmes do Adam Sandler, por exemplo). Excluí-se ai as comédias voltadas para um tipo muito específico de espectadores, como é o caso de Sex and the city e Superbad – É hoje.

Entretanto, se tem um mercado de comédias que me interessa é aquele que chamam de “entretenimento maduro”. Uma linha de longas que se escora nos filme do Judd Apatow – de O virgem de 40 anos e do ótimo Ligeiramente grávidos. Essa safra é o que de mais bem instruído há nesse circuito. Evitam qualquer comparação com babaquices como a franquia American Pie.

Os irmãos Farrelly, conhecidos por um pequeno clássico (Quem vai ficar com Mary?), são diretores que de alguma forma sempre tentam seguir essa linha, no entanto, Bobby e Peter se excusam de qualquer rótulo de politicamente corretos. O anterior, Antes só do que mal casado, um remake do filme de mesmo nome dirigido por Elaine May, acabou conseguindo acariar muitos detratores aos dois. O novo parece seguir a essência do último. Ainda que as imagens do longa continuem sendo imaturas e grosseiras (a cena do espirro ou da banheira), Passe livre refina o olhar dos Farrelly para o casamento.

O que há de mais interessante é como os diretores não largam mão dos personagens que criam, tanto os protagonistas quanto os coadjuvantes – há sempre um gancho que os trazem de volta à superfície. E nesse sentido, ao meu ver, já estão bem a frente de Se beber, não case. Era bem fácil tornar o longa numa série de peripécias sobre dois homens em total liberdade das responsabilidades do casamento, porém os Farrelly transformam num retrato da vida adulta, dos desejos e da vida a dois.

A primeira tentiva dos dois protagonistas, logo depois de receberem o tal passe livre, acaba se tornando uma comilância com os amigos, seguida por uma boa noite de sono e a desculpa “ainda temos uma semana” – hilário, inclusive, a idéia de colocar o som de Law & Order marcando a passagem dos dias. O filme parece descrever, até com certa nostalgia, a vida suburbana americana (e apesar de eu não ser dos mais fãs do Owen Wilson, ele consegue com alguma eficaz se tornar esse homem meio bobo, mas simples e correto).

Ainda mais funcional do que o roteiro, é como aos poucos as esposas percebem que o descontentamento com a vida fechada do matrimônio era mais delas do que deles. E os diretores, muito sabiamente, não resumem os dois casais, dão duas faces do problema. As mulheres tentam se mostrar maduras em relação ao casamento e só percebem o desgaste quando saem daquele cercado.

O longa, é claro, tem seus desgastes. A sequência em que eles comem bolinhos de haxixe, parece bem típica, por exemplo. Mas é o melhor filme deles desde Amor em jogo. E vamos ser um pouco polêmicos (porque blog vive disso, minha gente): antes o público dessas comédias (quase melancólicas), do que o público do bem executado e seríssimo O discurso do rei.

Passe Livre (2011) dirigido por Bobby e Peter Farrelly.