O melhor filme do Cronenberg conta a história de Tom Stall (Viggo Mortensen), um dono de restaurante de um pequena cidade dos Estados Unidos. Vivendo uma vida comum, Tom, devido a um assalto, se vê obrigado a intervir e acaba ficando famoso e sendo visto como heroi pelo povo da cidade. Aos poucos descobrimos que há muito mais escondido debaixo dos tapetes sobre esse personagem.

A primeira vista, por um olhar despreparado, Marcas da Violência pode parecer mais um daqueles filmes de arte que usa tragédia como única arma (o nome que ganhou aqui no Brasil não ajuda muito). Mas o longa é muito mais refinado do que isso, Cronenberg convida toda a cultura violenta americana para se sentar na mesa de jantar. As cenas mais impactantes não são as de confronto, mas as que vemos a reação da esposa ao tomar consciência do passado de Tom (a cena de sexo é mais violenta do que qualquer troca de tiros).

A principal marca do diretor, a análise profunda dos personagens, aqui parece ser o primordial do filme (e ele viria a fazer isso com bastante eficiência em Senhores do Crime). O prisma mais interessante é o filho, que evita qualquer tipo de confronto, mas logo perde a cabeça quando o próprio pai reage ao assalto. Cronenberg mostra como uma simples ação pode ir aos poucos infectando a mente não só dos envolvidos, mas dos que o cercam.

Ao retornar ao seu passado, Tom (ou Joey), decide de vez eliminar tudo que ainda o prende àquela vida. E depois de assassinar todo o grupo e ainda seu irmão (que parece ser o personagem homossexual, escondido em todos os filmes do diretor), Mortensen, numa cena genial, vai ao lago e limpa o seu corpo, mergulha seus dois braços na água como se aos poucos se livrasse de tudo aquilo.

A cena final, a da mesa de jantar, é a melhor do longa e resume direitinho os dilemas do circuito familiar. Sensibilidade que Cronenberg mostrar ter de sobra. Quando a filha coloca um prato a mais na mesa, ela não está somente convidado o pai a se sentar, está trazendo o equilíbrio de volta para a família.

Marcas da Violência (2005) dirigido por David Cronenberg.