Rango, o heroi que não se conhecia, que não sabia de sua história, que não sabia seu nome, que calhou de cair em uma cidade em crise. São várias as sinas que servem de premissa para o western animado de Gore Verbinski (o homem que dirigiu uma das trilogias mais insuportavelmente vazias que conheço, Piratas do Caribe). Em comum com Sparrow, o novo ser bizarro e pitoresco (engraçado sem querer ser), somente a obcessão do diretor. Johnny Depp toma controle dos dois, sempre afetadíssimo.

Durante a primeira metade do longa temos a impressão de que a primeira missão de Rango é nos fazer acreditar que sua história não é de um simples filme de heroi improvável. Repare como, diferente de qualquer animação, os personagens são todos feios (criaturas crueis, com passados terríveis). Gore quer mesmo passar para o espectador que Rango não é uma animação que você devia estar vendo com seus filhos. E é engraçado perceber que o que mais me incomoda no longa não é o formato meio passado do roteiro, mas a necessidade de caracterizar demais o protagonista.

Não dá para dizer que é uma tendência, mas várias animações já vem com essa necessidade de parecer algo mais no DNA. Mary e Max, por exemplo, explorava os temas mais vastos – e se perdia entre as diversas metáforas e ironias. Eu não estou dizendo que isso é um problema – o filme por sinal é uma delícia. Porém, nesse caso específico, me soa muito tramado, quase forçado. Mão pesada. Muito diferente da direção sutil do Unkrich, que fez de Toy Story 3 aquele maravilhoso conto sobre amadurecer.

Entretanto, é difícil não se apaixonar pela pequenas homenagens: seja o ataque dos morcegos ao som de Cavalgada das Valquírias (cena famosa dos helicópteros num dos meus filmes favoritos, Apocalypse Now), seja a conversa de Rango com Clint Eastwood no outro lado da estrada, de onde se pode extrair a melhor frase do filme: “um homem não pode fugir da própria história”.

Com seus diversos exageros e defeitos, esse é o melhor filme do diretor. Que, além da trilogia dos piratas, fez outra bobagem (que me tirou o sono), o remake de O chamado.

Ainda sobre o protagonista, o que mais me interessa é que ele aceita seu destino e decidi viver da própria mentira. Mesmo depois de revelar a cidade inteira que não havia feito nada do que havia dito,  ele continua a ser conhecido como Rango. Acaba o filme, passam os créditos e até agora não sabemos o seu verdadeiro nome.

Rango (2011) dirigido por Gore Verbinski.