Não sei se eu já contei isso aqui, mas eu moro numa bela casa com meus dois primos. Um tem 15 anos e gosta de funk. O outro tem a minha idade (19 anos) e adora música de boate. Vocês me conhecem, sou um cara chato para burro quando o assunto é música e cinema. Meus amigos geralmente me ignoram quando eu resolvo defender alguns filmes que todos rejeitam. Mas isso é assunto pra outro dia. O que importa é que, apesar das notáveis diferenças, eu e meus primos temos algo em comum: gostamos de ouvir música muito alto. O resultado é uma guerra de sons, eles soberanos no terceiro andar e eu reinando no primeiro.

É inevitável, quem mora no segundo andar aqui de casa acaba ouvindo os dois lados da moeda. E eu posso imaginar como isso pode soar. De um lado: “We’re gonna party, we gonna party all night, hit the club”. Do outro: “Nobody understand me, the world is a mess”. É o cúmulo: a música alegre e enxarcada de álcool dos dois contra os meus ídolos indies dopados de Valium. Eu juro para vocês, soa como experiência científica – Thomas Anderson filmaria essa batalha dos ruídos.

O que pode para uns parecer um embate de dois tipos de som que não namoram, para outros pode ser arte. De fato, um mix de Elliott Smith com Usher não agradaria ninguém, não é mesmo? No entanto, é de idéias como essas que surgem as coisas mais interessantes.

Daí que me deparo com esse House of Ballons, que soa como se um bom DJ (de preferência um que acabou de ouvir o disco do James Blake) resolvesse transcrever o que ele ouve no segundo andar da minha casa. Veja o exemplo de Coming Down que lembra um cruzamento bizarro de Grizzly Bear com Drake numa noite que tudo deu errado (os dois já se cruzaram aqui em casa, tanto no meu computador quanto no deles). E falando em Drake, o rapaz foi o responsável pelo hype que se deu atrás do lançamento desse disco, deixando novamente claro que o motherfucker não escuta qualquer coisa.

É preciso, no entanto, tomar cuidado para não julgar esse discão de ingênuo. Ainda mais quando ele consegue capturar aquela energia forjada do pop de pista. O formato das canções não foge dessa fórmula: catarse somado a um refrão grudento. A banda compreende direitinho a força dessa brincadeira, a inocência mora somente ai.

A equação de Abel Tesfaye (o homem do The Weeknd) me soa bem simples por sinal: encontrar o meio termo entre a fanfaronisse das canções sexys de R&B e a poeira aborrecida (e melancólica) do indie. É um disco sem máscaras, tudo fica bem explícito ao longo das audições. Aos poucos vamos encontrando diversos traços que ora obscurecem as faixas, ora as transformam em explosões como numa boa música de boate.

Na abertura iniciam com uma batida de hip-hop enquanto um vocal se corrói todo, em seguida tudo sofre uma distorção bem familiar (já é influência do Blake?). A letra sagazmente, através de uma história bobinha sobre um menina enciumada, nos faz abraçar a arte do cara: “abra sua mente, tome um copo d’ água. Não tenha medo, menina, eu estou aqui apesar de você não acreditar em mim. Você vai querer estar chapada para isso”. Em outro momento cita abertamente o Beach House utilizando dois samplers (o mais explícito o de Gila em Loft Music).

O discurso do The Weeknd também parece querer jogar nos dois times.”Ele é o que você quer, eu sou o que você precisa” revela em What you need. Em outra vai ao fundo do poço: “Traga amor, eu trago a vergonha, traga as drogas, eu trago minha dor”. Já em The party & the After party nos descreve uma típica femme fatale que todos querem na noitada: “Com sua bolsa Vitton, braço tatuado, salto alto… todos te querem, você pode ter todos”.

O ponto alto é mesmo House of Ballons – Glass Table Girls, que soa se estivessemos numa sala cheia de rappers segurando balões vermelhos. É quase uma ode esquizofrênica às tradições do R&B.

Essa falação toda para dizer que esse é um dos meus discos favoritos nesse início de ano. Soa afiado como todo primeiro disco deve ser e parece ter vindo para discutir frente a frente com o James Blake. É aquela história de arte pessoal que eu sempre digo. Tem aquela outra ladainha da colagem pop. E, se me permitem, vou usar um argumento muito do manjado, mas que explica bem o álbum: usar fragmentos de outras coisas como arte é uma baita cara de pau, porém é preciso ter o mínimo de talento para transformar essa picaretagem em beleza. O primeiro capítulo do The Weeknd deixa essa impressão.