[Além da vida , Clint Eastwood] 75
“Recomendado”

Vamos combinar que desde Gran Torino (um dos melhores filmes da belíssima filmografia de Clint Eastwood) o El Bueno está em piloto automático. Porém, ele – assim como o Woody Allen – é um dos poucos diretores que não conseguem ficar um ano sem gravar um filme. O novo parece seguir a linha do anterior, Invictus. Se antes Clint olhava a união pelo esporte com seu típico tom positivo, agora ele resolve filmar uma religião com a tranquilidade e a cabeça aberta necessária para esse tipo de assunto. Não há nada que não tenhamos vistos em outros longas do diretor, mas é impressionante como todo filme dele funciona direitinho. Isso porque o cinema de Eastwood, mesmo quando parece estagnado, sempre tem algo a dizer sobre o nosso tempo e sobre a nossa existência. São longas simples, por vezes inofensivos, mas nunca ingênuos. Brinde para quem pagou o ingresso: uma sensacional cena de tsunami.

[Fair Game, Doug Liman] 65

É um típico filme político – nesse caso específico com premissa de expôr o momento mais vergonhoso do governo Bush. E assim como Tropa de Elite 2, parece focar por diversas vezes somente na denúncia do escândalo (o drama familiar, por exemplo, me parece frouxo). Sem falar na série de informações nos primeiros minutos, importantes, mas aparentemente prolixas. Entretanto, me interessa como Liman toma os caminhos de um típico filme de ação e transforma sua crítica em uma guerra de palavras (o efeito é parecido com o da franquia Borne). E vocês sabem, qualquer filme com a Naomi Watts (que é, para mim, uma das melhores em atividade) me deixa desarmado.

[Fúria sobre rodas, Patrick Lussier] 60

Soa como um filme de um diretor que gostaria de ter participado do projeto Grindhouse (com Robert Rodriguez e Tarantino). Aos poucos ele quebra essa impressão e se espreme entre a violência desenfreiada e cenas de ação improváveis. Machete me diz muito mais por exemplo. Mas difícil não se deixar levar por um filme que passa quase toda a sua execução fazendo pouco dos recursos tecnológicos que sujeitos como Zack Snyder levam tão a sério. Os atores encontram o tom certo – de brincadeira para machões. Tem mais: Nic Cage em 3D se fazendo de turrão, impagável.

[Sexo Sem Compromisso , Ivan Reitman] 50

Eye-candy. Para as meninas, o bonitão Ashton Kutcher. Para os rapazes, a lindinha Natalie Portman. Admito que o início do filme é delicioso. E o mais interessante é como um diretor tão moralista acaba banalizando o sexo. Sempre pensamos que a idéia principal do início de uma relação é o sexo, por isso é algo tão valorizado. O filme consegue modificar essa visão de uma forma bem simpática. Os personagens, no entanto, não ajudam. O final típico e a carga moral também não contribuem nem um pouco. Funciona para o público de comédias românticas, mas não passa disso. E tem a Portman numa atuação bem ridícula.

[Lixo extraordinário,  Lucy Walker] 50

Se as entrevistas de João Jardim não tivessem sido feitas com tanta dedicação e se os personagens não fossem tão fascinantes seria um completo desastre. A figura de Vik Muniz não me incomoda, mas também não me passa franqueza. O maior problema do documentário é a edição pobre e os momentos vergonhosos – como é o caso da abertura (programa do Jô?). Além disso, não mostra mais do que o projeto de um artista plástico mundialmente conhecido (que é realmente fantástico); evitando mergulhar no que o longa tem de mais interessante e belo: a mudança na vida dos catadores. Fica difícil até saber quanto tempo o projeto durou. Bobagem que acabou parando no Oscar.

[Incêndios, Dennis Villeneuve] 45

Péssima notícia: o processo de iñarrituzação do cinema não tem mais volta – note como estou evitando assistir o longa mais recente do cara (Biutiful, também na lista do Oscar). Esse filme canadense nos conta duas histórias distintas de uma busca por um mesmo objetivo. Durante o percurso tomado por mãe e filha a única alternativa do filme é nos chocar com imagens de crueldade e frieza a troco de nada (nem a trilha movida a Radiohead me convenceu). O final me soa até corajoso, mas dentro de um película tão vazia fico com a impressão de que tudo foi montado apenas para dar vazão ao desfecho. Outra bobagem que engana.

[Burlesque, Steven Antin] 20

O prêmio de pior filme do ano vai para: Burlesque. Nem vou perder meu tempo comentando atuações (um show de horrores, a começar pela bonitinha Christina Aguilera), prefiro apontar o que o filme tem de mais picareta: a quantidade absurdas de clichês (não só de musicais, mas de dramas e romances). Ainda tem as músicas, a maioria reciclada porcamente – nos melhores momentos me soam apenas bem executadas. Não se aproveita quase nada do filme. E chegou a hora de perguntar: alguém ainda aguenta o Stanley Tucci fazendo aquele mesmo papel?