Amantes Constantes, Philippe Garrel (Les Amantes Réguliers, 2005)

A principal característica que cobro de filmes longos é a fluência. Dois filmes com cerca de três horas de duração estão entre os meus favoritos, são eles Barry Lyndon (do Kubrick) e O Poderoso Chefão (do Coppola). São filmes que embora transcorram as tradicionais duas horas, conseguem equilibrar uma atmosfera própria de modo a nos manter imersos em sua estética. Há momentos em ambos os filmes que simplesmente paramos de pensar e deixamos os caminhos mais simples da obra nos carregarem, é o caso da trilha sonora, das frases de efeitos, entre outros truques.

O genial filme de Phillippe Garrel, ao meu ver, não possui nenhuma arma para manter a atenção do espectador. A trilha sonora não é pegajosa (com excessão da belíssima canção do The Kinks), as frases não são memoráveis e o ambiente quase sempre nos mergulha em puro tédio. É a forma que Garrel encontra para dar ao seu longa o ar de lerdeza e monotonia da juventude. E é muito provavelmente uma das explicações que o filme fornece para as investidas dos jovens contra as formas de controle.

Confesso que boa parte do meu desinteresse pela primeira metade do filme vem da minha falta de informações sobre esse período da história da França (prometo voltar ao filme daqui alguns anos um pouco mais informado sobre o assunto). Porém, mesmo que extremamente lentas, as cenas de confronto entre jovens e policiais nos fornecem, a princípio, a matriz de Amantes constantes, um filme capaz de capturar romantismo até numa cena de guerra. Durante o confronto, os ativistas se dividem entre os que se beijam e os que alvejam a barricada dos policiais.

Impossível não traçar um comparativo com a Novelle Vague – principalmente com Os Incompreendidos do Truffaut. E num momento mais solto da trama podemos avistar acenos a Goddard – principalmente quando Clotilde Hesme olha para a câmera diretamente e fala algumas frases (há outro momento inclusive em que ela fala o nome Bernardo Bertolucci). O elo entre esses três diretores talvez seja o amor pela vida vagabunda, o desprezo por qualquer amarra moral ou social. No filme de Garell, a fuga se manifesta apenas através do pensamento, diferente dos outros que filmam a real fuga (representada pela mudança repentina na narrativa de Godard e pelo olhar perdido do protagonista de Truffaut ao fim do filme). São filmes sobre a dificuldade de se entender como organismo. “Não sei porque vivo, só sei que quero viver” nos explica Anna Karina.

Porém o que mais me impressiona nas três horas de Amantes Constantes não é a forma documental como Garrel relata o movimento estudantil de 69, mas sim como ele transforma uma simples história de amor numa análise da juventude, esta que sai as ruas lutando contra movimentos que mal compreendem e que parece ter a resposta para todos os problemas do mundo. É uma crônica de sonhos palpáveis, sobre jovens que conseguem aguentar a coronhada de uma pedra, mas não conhecem a força mortal de amar. E esse é o erro que culmina a vida do personagem de Louis Garrel. Ele podia ter caido antes nas mãos dos policiais, porém enquanto seu corpo cansado de correr não se entrega na fuga, este mesmo corpo desiste de viver quando não pode mais ter quem ama.

De certa forma, a faixa dos Kinks que toca numa das festas representa com perfeição a sensação de um adolescente. “A essa hora amanhã, onde estaremos?” cantam. A dúvida é quem mantém viva essa necessidade de querer algo que nunca se sabe o que é. E eles dançam ao som dela como se a vida fosse um musical.

Os Sonhadores, Bernardo Bertolucci (The Dreamers, 2003)

Há algumas semelhanças entre o filme de Garrel e de Bertolucci. A começar por Louis Garrel que participa dos dois, em destaque em ambos. Depois, é claro, o pano de fundo. Para completar, ambos tentam filmar a expressão mais natural do homem, a expressão sexual (explorada em excessão por Bertolucci) é sempre vista como a urgência mais significativa (e, felizmente, é banalizada por ambos).

A princípio a grande diferença entre os dois filmes é a riqueza ideológica do francês. Enquanto Os sonhadores resumi a ambições pelo desconhecido, Amantes constantes nos dá diversas bifurcações. O que me parece é que Bertolucci só tem uma arma, o escândalo sexual que às vezes tende ao incesto. É uma caminho mais fácil e mais vazio para caracterizar a situação. O longa tenta se explicar, mas evitando se alongar termina quando começa a ficar interessante. Os caminhos que deixa aberto (a ideia do suicídio, por exemplo), principalmente pela velocidade com que se concluem, me soam como um recurso desesperado do diretor italiano. Garrel é mais refinado e o cenário que montou lhe dá mais alternativas.

O que melhor extraio desse longa são as pequenas citações a grandes filmes e diretores, que apesar de estéries, foram feitas com muito respeito – além da ótima trilha sonora (que conta inclusive com a bela música tema de O Demônio das Onze Horas do Godard). No mais, me soa como um trabalho imaturo de quem sai atirando para todos os lados sem saber exatamente o que quer acertar.