Um tiro na noite, Brian De Palma (Blow Out, 1981)

A princípio esses me parecem os dois filmes que colocam em prática com maior maestria a idéia fundamental da filmografia de De Palma, a premissa de que a câmera mente a todo tempo, mente 24 frames por segundo. São dois thrillers que giram em torno do personagem principal, por isso, essencialmente thrillers psicológicos. Sabemos que é comum nesse tipo de filme o diretor envolver o espectador no drama central, fazendo-o passar pelos mesmos testes do protagonista (lembremos ai do Cisne negro do Aronofsky). O caso desse dois filmes é diferente.

Embora De Palma passe boa parte do tempo tentando nos enganar, escondendo pistas, nos tirando da linha exata do roteiro (e por isso nos frustra no final), ele é mais refinado. Estamos sempre acima dos personagens, aqui não somos meros espectadores que sabem sempre um pouco mais do que eles. Nem por isso os filmes deixam de serem tensos quando necessário, isso porque antes de qualquer foco mais complicado ou arriscado, a atmosfera já está criada com perfeição. É fácil perceber isso na cena em que câmera gira freneticamente pelo estúdio de Jack (John Travolta) e ouvimos infinitos sons de fitas e telefones.

Ambos começam com cenas aparentemente descontraídas, mas que escondem o talento de Brian De Palma para ambientação. Duas aulas de imersão que jogam com o lado erótico e intrigante das obras.

Em Um tiro na noite com a câmera na mão acompanhamos um assassino que observa uma casa repleta de meninas fazendo as mais variadas coisas (transando, se masturbando, dançando), só depois ficamos sabendo que isso é apenas um filme que John está editando. Partindo dessa primeira sequência, De Palma já nos mergulha no que o longa tem a oferecer no campo da realidade. Até que a câmera nos corrija aquilo é o que temos como real, história.

O caso de Femme Fatale é diferente, o plano que temos é o verídico. Durante o festival de Cannes, um grupo de assaltantes tenta invadir o evento para roubar uma peça de ouro que uma mulher carrega no corpo. Orquestrada pelo Bolero de Maurice de Ravel, a câmera filma simultaneamente (característica recorrente na filmografia do cara) a invasão pelos ductos do estabelecimento e a personagem de Rebecca Romijn (Lily) transando no banheiro com a tal mulher.

Femme Fatale, Brian De Palma (Femme Fatale,  2002)

Somente mais tarde que ambos os filmes começam a destrinchar o que De Palma tem a dizer sobre cinema. A remontagem da realidade apartir de fragmentos do que temos de evidência ou do sonho nos casos distintos, soa como uma declaração de amor do diretor a própria arte. Jack cria o cinema através de fotos e som, enquanto Lily se descobre no limiar entre a verdade e a quase-verdade. Com o que tem eles tentam encontrar o plano real.

Por isso, é ainda mais interessante perceber que do momento que a fita começa a rodar temos nada mais nada menos do que a mentira contada como se fosse verdade. Numa cena Jack explica para Sally (Nancy Allen) que o som que ouvimos nos filmes são todos gravados e depois mixados à fita, portanto são mais reais do que qualquer imagem. Entretanto, somente o som não é suficiente para que ele prove o crime que acredita ter presenciado, a imagem também se faz necessária. Deixando evidente que somente com essa soma podemos ter a realidade.

O clímax de ambos os filmes, ao menos para mim, não é somente nas suas cenas principais (o mergulho de Lily e a cena dos fogos de artíficio em Um tiro na noite). A parte mais impactante de ambos os filmes é quando enfim De Palma nos apresenta a sua concepção real. No filme de 2002, nos apresenta uma estrutura semelhante a da obra-prima de David Lynch, onde o sonho toma conta do real, desenhando através de fatos verídicos os caminhos dos personagens e, embora a parte final me parece um pouco embolada, afirma mais uma vez que a câmera está sempre tentando nos enganar. O diferencial talvez more ai, porque no filme de 81 De Palma recria o real adicionando o grito de horror de Sally ao filme. A mentira que toma partes do real.

São dois filmes que dialogam com a essência do cinema de Brian De Palma com muito mais categoria do que o superestimado Scarface, mas preciso assistir alguns que faltam da filmografia do sujeito para poder entrar numa discussão mais ampla sobre suas obras. Por hora, fica a admiração desses que são dois dos meus favoritos.