Homens e Deuses, Xavier Beauvois (Des hommes et des dieux, 2010)

Mesmo que, do princípio ao fim, Homens e deuses nunca largue a câmera que fotografa o cotidiano (e por isso, soa  no princípio como um filme bem típico), Beauvois não permite que julguemos seus personagens. Mesmo quando estes descem dos pedestais e se mostram como seres humanos, nós somos incapazes de condenar suas açãos. Neste longa, os monges estão acima de nossa compreensão.

Talvez por isso, o filme seja narrado num ritmo lento, mostrando todas atividades desses homens (desde suas orações até a jardinagem, o trabalho caseiro). Esta é a forma como Beauvois tenta nos aproximar da figura humana de criaturas tão puras – e por serem assim tão justos e benevolentes, os monges francenses realmente se aproximam de deuses.

No entanto, o pano de fundo é de guerra civil. Tendo de decidir entre a vida e a possibilidade de morte, acabamos por encontrar com os homens que estão por debaixo da batina. Cada um com seus medos, opções, pesares e arrependimentos. Assim, apartir da segunda metade do filme, deixamos de perceber aqueles seres como uma unidade e passamos a assistir suas singularidades.

Importante também perceber que o diretor jamais permite que o filme se torne um drama histórico. As cenas em que encontramos os personagens em histeria são sempre feitas com sensibilidade e bom senso. Beauvois consegue unificar essa sensação na cena principal – das mais poderosas do ano – onde ele foca individualmente os rostos dos personagens ao som do O Lago dos Cisnes, cada um com seus temores expostos.

Ainda mais interessante é como o filme parece todo construído apartir do salmo “Vós sois deuses. Todavia morrereis como homens”. Xavier Beauvois consegue, antes de mais nada, um filme sobre personagens e suas transformações.