Vocês conhecem o rapaz, não é? Aquele baixinho que sempre andava acompanhado do parceiro Garfunkel.  Que fez uma pontinha na obra-prima do Woody Allen, Noivo neurótico, noiva nervosa.

Há muitos anos atrás, Simon & Garfunkel escreviam as crônicas mais saborosas sobre um mundo em movimento – sempre com sabor de velho, mas nunca tímidas ou preguiçosas. Juntos, os dois amigos escreveram um dos álbuns mais solenes dos anos 60 – Bookends – e se separaram.

O ano, no entanto, é 2011. Simon, agora um adulto, pai de família, não parece dever mais nada ao mundo. Na carreira solo gravou pelo menos dois discos geniais. No papel, o tal sujeito não precisa mais provar nada a ninguém. Poderiamos estar frente a frente como mais um disco de um gênio em perfeito conforto. Por cobrança particular, Paul Simon não colocou os seus instintos para dormir. Por isso, ouvir So Beautiful or So What (o décimo-segundo álbum da carreira) e encontrar nele um espírito jovial é algo a se celebrar.

Desde Graceland, Paul parece mais preocupado em encontrar ritmos perfeitos do que se entregar aos limites da canção pop. Naquele disco ele inventava uma forma singular de escrever suas faixas, traçando as referências mais diversas, passando a perna nas próprias melodias. Entre uma ou outra faixa mais genérica, ainda é possível se enxergar essa obcessão por ritmo no álbum novo, principalmente em Getting ready for Christmas day.

Há algo aqui que demostra a eterna insatisfação do artista. Uma espécie de monstro criativo que tenta encontrar novos formatos para melodias e influências que já conhecemos. Por isso este é um disco inquieto, muito diferente do que se esperaria de um ídolo eternizado. Simon, para nossa sorte, não parou no tempo.

Isso reflete principalmente na estrutura instável das canções. Love is eternal sacred light – a minha favorita – tem a percursão de um canção country, mas se desdobra num palanque de mil cores, com direito a guitarras distorcidas. Na faixa que termina o álbum, Simon cria uma ponte entre o southern-rock e o afropop.

Se na sonoridade encontramos o mesmo cronista pop incansável, nas letras vemos o paizão apaixonado pela vida familiar. “Eu digo aos meus filhos que a vida é o que fazemos dela” conta aos pequenos com o violão debaixo dos braços. Claro, nunca se livra da crítica, da visão do gênio: “Não é estranho como somos ignorantes? Como procuramos um conselho ruim, confundido o valor pelo preço” explica numa história para dormir.

Por essa necessidade intrínseca ao artista, So Beautiful or So What já seria um disco especial. Não é um grande disco como ele gravou nos anos 70 e 80. Mas me parece mais interessante e vibrante do que muito coisa que anda surgindo em 2011. “Eu estou trabalhando na reescritura, eu vou mudar o final” nos conforta em Rewrite e, sabemos, nele podemos confiar.