O jogo é simples, os cinco melhores filmes que vi fora do circuito. Começa esse mês e deve continuar nos seguintes, com excessão do próximo – porque em junho vai chover listas de meio do ano, aguardem. Os que quase entraram: A Bela da Tarde (1965, Luis Buñuel), Zelig (1983, Woody Allen), O Ano Passado em Marienbad (1961, Alain Resnais) e Conto de Verão (1996, Éric Rohmer).

05 [Um, Dois, Três, Billy Wilder, 61]

Provavelmente o filme mais escrachado de Billy Wilder, talvez por isso um dos mais engraçados (nesse quesito perde somente para Quanto Mais Quente Melhor). Um pouco forçado demais em alguns momentos, esta é mais uma das suas comédias políticas movidas com os mesmos truques de sempre. No entanto, como o gênio que é, Wilder concentra a riqueza do longa justamente nas piadas vulgares. Toda a sequência do restaurante – incluindo a genial parte em que a secretária sob na mesa para dançar – demostra a capacidade gigantesca do diretor em capturar o ser humano como uma sátira de si mesmo.

04 [Irma Vep, Olivier Assayas, 96]

Para muita gente o melhor filme do diretor francês – ainda não posso dizer, esse foi meu primeiro filme do sujeito (indicado pela Taís). Focando sempre na protagonista, vivida por Maggie Cheung, o diretor cria uma sátira ousada sobre a excentricidade de alguns diretores franceses (e ai é no mínimo cômico encontrar esse personagem em Jean-Pierre Léaud, alter-ego do mais simples dos diretores da Nouvelle Vague, François Truffaut). A entrevista com Maggie (junto com a cena final e a sequência da chuva) talvez seja a parte mais poderosa do filme. Realidade e ficção se misturando – ai sim Assayas me impressiona muito.

03 [Descontruíndo Harry, Woody Allen, 97]

Engraçado como o filme mais bonito (do ponto de vista emotivo) de Woody Allen, é também o seu mais violento e sacana – é um dos poucos filmes do nosso cético favorito onde se tem nudez. Mas, sem dúvida alguma, este é um dos seus roteiros mais brilhantes – ainda que ele acabe caindo em diversos lugares comuns. As pequenas histórias dos alter-egos do personagem principal nos mostra a extrema criatividade com que Allen procura imagens para dar vida aos seus dilemas pessoais. O desfecho é tão belo quanto triste.

02 [Um Cão Andaluz, Luis Buñuel, 27]

A obra-prima intangível de Luis Buñuel (com as mãos também pesadas de Salvador Dali), certamente não é o filme que mais me deu prazer nesse mês. No entanto, seria um crime deixá-lo de fora, por sua importância, ousadia e principalmente por seu legado (sem essas ideias, quem sabe, Lynch não teria se inspirado e nunca teria feito o meu filme predileto). Trata-se de uma sequência de imagens que impressionam principalmente por serem da época que são – e elas dão cores aos mais diversos temas: da puberdade ao fim da vida. Porém, o mais chocante está na imagem acima. Um olho, uma lâmina, um corte e o eterno mergulho no mundo dos sonhos.

01 [Hannah e Suas Irmãs, Woody Allen, 86]

Uma das obras-primas do diretor, não porque foge do esquema montado quase metodicamente por ele (eu quase aposto que ele se supreendeu com o resultado final), mas por encontrar os eventuais problemas no núcleo menos evidente. Aquela que deveria ser o porto seguro, pela ausência de dilemas (todos os outros personagens vivem alguma espécie de drama), é justamente a origem de todas as sinas. Muito bem interpretada pela sempre confiável Mia Farrow, Hannah é a lente ideal que Allen olha com tanta repulsa. Para ele o mundo continua a ser dos miseráveis e dos sofredores.