X-Men: Primeira Classe, Matthew Vaughn (X-Men: First Class, 2011)

Franquias são armadilhas, não são? Quarta-feira fui ao cinema assistir o novo filme da franquia Piratas do Caribe. Sai da sessão com impressão de que, principalmente para o grande público, não é necessária grande ousadia para fazer o ingresso valer a pena. É fácil demais prender o público na sala com fórmulas simples: romance, ação, uso abusivo da mesma trilha sonora. E ai não importa que continuação da saga dos Piratas seja um daqueles longas preguiçosos, repetitivos, sem quase nenhum esforço criativo do diretor e do estúdio.

O que podemos então dizer de um franquia que já existia antes de se tornar filme. Os X-Men estão entre nós há muito tempo, nos quadrinhos, desenhos animados, videogames e etc. Isso sem falar dos filmes dirigidos por Bryan Singer na década passada (os dois, por sinal, excelentes). Os mutantes capitaneados por Charles Xavier estão presentes no meu imaginário desde que descobri como usar o controle remoto para mudar da novela para o canal de desenhos.

É por isso que como produto de consumo (um típico blockbuster), X-Men: Primeira Classe não tem como falhar. É arejado, fugaz (apesar de longo), respeitoso, divertido e etc. Consigo achar diversos motivos que fazem dessa sequência uma armadilha perfeita. Mas e além disso?

Durante os seus 132 minutos, eu não conseguia parar de pensar nas intenções do diretor. Antes desse aqui, Vaughn dirigiu três outros filmes. Um deles um desastre chamado Stardust. O outro (Kick Ass), uma divertidíssima homenagem ao cinema violento de Quentin Tarantino (a quem ele vem a homenagiar de novo). Do que vi, ele não parecia ser um diretor de grandes arrombos criativos e, não aparentava saber lidar bem com sutilezas. O cinema de Vaughn é assim, meio brutamontes, tudo ou nada, ação crua. Quem sabe daí vem minha surpresa ao assistir um longa que, mesmo sem mexer na matriz construída por Singer, me soa tão firme, tão ciente do que quer.

O primeiro acerto é o elenco. Se nos primeiros filmes temos uma grande quantidade de atores mais usuais, aqui encontramos atores novos que trazem instantaneamente jovialidade para a franquia. A dupla principal (James McAvoy e Michael Fassbender) dá o tom, mas não esconde os coadjuvantes. O principal deles é Jennifer Lawrence (que já tinha sido reconhecida por Inverno da alma, e talvez merecesse aquele Oscar mais do que Natalie Portman), que consegue dar ainda mais ambiguidade à já misteriosa Mística.

O outro acerto podemos agradecer à mão pesada de Vaughn, que retira um pouco da inocência da série. Há certa perda sobre o tom dramático da crítica ao preconceito (marca principal da metáfora montada pelos outros filmes), quando aos poucos Vaughn deixa suas marcas recaírem sobre o longa. Isso, visto dessa forma é algo positivo, pois não reutiliza completamente recursos já usados (que acabariam acareando comparações ao fraco terceiro filme). Por isso cenas como a da rápida aparição de Wolverine são bem vindas. Assim como o olhar inicial à Charles, sem as pompas de um típico líder.

Como já havíamos visto antes, Vaughn se aproveita das táticas de Tarantino. Com as mesmas intenções de Bastardos inglórios, ele reescreve a história, revelando que o evento que quase culminou na Terceira Guerra Mundial (A crise dos mísseis em 1962) foi contido pela ação dos mutantes. Não feliz com essa citação, ele ainda se utiliza daquele típico foco presente em todos filmes de Quentin Tarantino (o tradicional plano de baixo para cima, que nos dá a impressão de que os atores olham diretamente para nós).

O grande destaque, no entanto, são as cenas de ação. O diretor conseguiu algumas das sequências mais deliciosas dos últimos tempos. Sem se utilizar de câmeras lentas (como anda sendo comum, não é Zack Snyder?), Vaughn acompanha os movimentos somente quando necessário, raramente vemos uma troca exagerada de planos (vide as cenas em que Azazel aparece). O ápice é mesmo no momento que Erik levanta o submarino, pura grosseria, selvagerismo que o diretor leva aos extremos.

Há ainda que se admirar – nos tempos da supervalorização do complexo – a forma simples como encontraram as soluções para o roteiro. Principalmente quando o filme tem o dever ingrato de contar a origem de vários dos mutantes que já conhecíamos. E para essa função, o longa se apóia muito na boa atuação do elenco.

E a impressão final é de que, assim como o Homem de ferro de Jon Favreau, X-Men vive antes de mais nada pela eficiência -por serem longas objetivos no roteiro, mas amplamente inspirados em contar a história. Ainda nesse comparação, o filme de Vaughn sai ganhando, muito por causa da temática e pela profundidade como ela é explorada por ele.

Talvez não agrade quem busca uma fita de heroi à Sam Raimi. Vaughn não está no mesmo patamar do diretor de Homem-Aranha. Mas se nos filmes de Raimi temos certeza de que embaixo daquele uniforme bate o coração de um homem, aqui sabemos que por trás da câmera está um sujeito interessado pela história e pelos nuances criados por ela (diferente do que vemos em Thor).

Sendo assim, é justíssimo que ele tome as rédeas do legado e muito sabiamente o transforme num épico de guerra. Ainda que esta não seja a guerra selvagem que Tarantino nos levou a conhecer, não nos deixa totalmente ilesos. Pois, ainda que estejamos em outro filme, com outros personagens, a herança de Singer ainda está aqui. Talvez por culpa do cinema bruto de Vaughn, os temas sejam abordados com muito mais escândalo. Vide o drama de Raven, que se esconde da sua real natureza – feia aos olhos dos demais. Ou na cena em que Charles pede desculpas a Hank por tê-lo “tirado do armário”.

Numa das últimas cenas, os que não “pertencem” a sociedade são isolados numa praia entregues a uma chuva de mísseis. E ai fica claro que X-Men ainda é um filme sobre nossa dificuldade de aceitar as diferenças.