Poucos discos nessa primeira metade do ano me fizeram duvidar das minhas primeiras impressões. A grande maioria me tomou pelos braços logo no começo ou lá nas últimas audições, quando eu já estava prestes a deixá-los de lado. Oneirology, o quinto disco do CunninLynguists, é um daqueles álbuns que te acertam de primeira e por alguns minutos te deixa completamente anestesiado.

Durante duas ou três audições é quase impossível chegar a uma conclusão. Porém, quanto mais se escuta o disco mais se percebe suas fraquezas e seus vícios. Apenas quando se observa com certa distância é possível enxergar que esse é mais um álbum de hip-hop que se utiliza de quase todas as manias do estilo: as colagens de samples, as múltiplas participações especiais, a super-produção, os ecos de soul music e etc. Então como explicar canções tão poderosas?

A resposta parece estar contida nos próprios integrantes. Numa crise de criatividade, os três manos que comandam os aparelhos do CunninLynguists, resolveram investir em participações especiais em álbuns de outros artistas e trabalhos solos. Portanto, desde o sucesso do disco de 2006, A Piece of Strange, Kno, Deacon the Villan e Natti estavam adormecidos – e chega a ser irônico falar isso quando o tema principal de Oneirology são os sonhos.

A banda novamente assina pelo selo QN5, uma gravadora pequena que desde 2000 só produz hip-hop. E ai talvez por pressão comercial, saem com um álbum que para os padrões atuais é até modesto – o outro grande disco do estilo Goblin, não tem muita preocupação com ajustes e produção higiênica. Ainda assim, o CunninLynguists tem algo que Tyler (o menino aborrecido) não tem, o talento para compôr grandes canções – com um senso de fluência e melodia raríssimo.

Onirologia significa, segundo o dicionário, estudo científico dos sonhos. O título óbvio, no entanto, não reduz a temática do álbum. Este aqui é como um filme de Luis Buñuel, nos sonhos retratados não encontramos matemática perfeita – muito menos nuvens feitas de algodão-doce. O que a banda faz é abrir a paleta de cores e nos apresentar uma sopa de impressões que passam por dilemas políticos e sede de violência (Harder as They Come e Murder), fantasias eróticas (Enemies with Benefits), busca por redenção (Dreams), felicidade dopada (My Habit (I Haven’t Changed)).

Nas canções mais impactantes, o CunninLynguist se mostra um grande cronista. “Você está bravo porque ninguém está te dando tag nas fotos?” perguntam na cínica Get ignorant, com uma letra sobre gente que ignora os dramas do mundo com se nem fizesse parte do planeta Terra. “Genocídio no leste da África, mas você está em casa assistindo Battlestar Galactica” completa. Em outro momento se prepara para tornar-se um vingador, escondido nas sombras da cidade nos revela: “se eu pudesse escapar depois do homicídio, eu levaria minhas armas e iria cometê-lo”. Pesadelo.

Como um concorrente do gigantesco My Beautiful Dark Twisted Fantasy (e é impossível se falar de hip-hop nessa década sem citar o álbum), Oneirology sai atrás. A ambição musical deles não acompanha as intenções de um rato do pop como Mr. West. Estes manos preferem reiventar canções, reutilizar ideias. Por isso tem um quê de Beastie Boys (Get Ignorant), de Kanye West (Dreams), de The Roots (Shattered Dreams).

Oneirology é um daqueles discos que nos fazem rever nossos próprios conceitos de música. É um álbum tão orgulhoso dos próprios truques baratos (como o personagem central de O Mágico de Sylvain Chomet) que nos deixa sem argumentos. Ouça e perceba como é até um álbum curto, não há sobras. A canção final, inclusive, não nos leva para fora do sonho, mas dá continuidade ao mantra onírico. Um detalhe. Mas grandes discos são feitos de detalhes.