Reino Animal, David Mochôd (2010)

Reino animal, a ótima estréia de David Michôd, foi lançado diretamente em DVD (mesmo tendo uma das candidatas ao oscar de melhor atriz coadvujante, Jacki Weaver). Um bela furada, pois trata-se de um grande filme, que certamente teria sido uma delícia de se assistir no cinema.

Bom, esquecendo os problemas do nosso circuito defeituoso, vamos falar do filme. Assim como um outro grande longa do ano (aguarde, logo falarei sobre ele), Reino Animal amarra alguns diversos clichês do seu gênero. Este é, a princípio, um típico drama familiar focado no membro recém englobado, que aos poucos nos revela as facetas de seus indíviduos com suas singularidades e problemas. A família que recebe o órfão “J” Cody (James Frenchville) em seu ninho é, antes de mais nada, uma gangue declarada – dona de diversos esquemas no submundo do crime.

A direção maduríssima de Michôd começa a impressionar na apresentação dos personagens. Sem se utilizar de métodos óbvios, o diretor permite que tiremos nossas próprias conclusões sobre os membros da família. Para isso ele entrega uma série de cenas muito bem montadas. A começar pela cena do banheiro, onde Baz Cody (Joel Edgerton) obriga “J” a lavar suas mãos. Ali Michôd mostra que antes de empresário do crime, o tio do rapaz é um educador.


Percebemos, enquanto a narrativa evolui – um pouco lenta é verdade -, a complexidade com que os personagens foram construídos. A mais impressionante é a personagem de Jacki Weaver (numa grande atuação), a ambígua mãe da família Cody. Ela é a leoa, capaz de devorar os próprios filhotes para proteger o seu reino. E, como tal, precisa mostrar aos seus filhos que ali, na dualidade do ambiente famíliar e criminoso é ela quem manda. Para tal, ela obriga eles a sempre darem-lhe um beijo. Com o detalhe de que este deve ser sempre na boca. Isso mostra como os tais filhotes são submissos às garras da mãe – o manda-chuva não é Pope (Ben Mendelsohn) como a narrativa tenta nos fazer acreditar, e sim Weaver.

Não encontramos um exímio narrador, mas um ótimo ambientador. A atmosfera não é de filme de suspense ou de crime, mas sim de terror. Por isso logo associamos as figuras dos personagens a animais. Não é atoa que um dos filhos tem tatuado em suas costas diversos seres da floresta, como se ilustrasse o reino cruel que vivem. E o próprio filme é capaz de provar isso com suas viradas e ações de pura frieza.


E ai vale perceber como a atuação de James Frenchville é importante, pois ele se comporta como uma câmera curiosa, completamente silenciosa. O advogado da família inclusive o avisa para nunca dizer nada, permanecer mudo. Esperto, o rapaz sabe que no reino das feras ele, fraco, não é capaz de mudar nada, por isso ele cumpre suas obrigações sem reclamar, enquanto vive a vida normal de adolescente. Isso porque ali, os seres não existem separadamente e sim como uma unidade. “Tudo tem haver com todos” explica um dos tios.

O clímax, na conversa entre o Detetive Leckie (Guy Pierce) e “J” Cody explica como aquele universo funciona. E apesar do didatismo, não deixa de ser uma cena forte. Dali Michôd, com inteligência, puxa outro gancho. Pois, naquele momento ele revela que não é só o universo criminoso da família Cody que está repleta de selvagens – o mundo inteiro é feito de animais, praticando qualquer ato que for preciso para sobreviver. Por isso a cena em que os políciais se rendem aos próprios policiais é tão significativa.

É importante perceber que é o indíviduo pequeno e fraco que traz novo equilíbrio à todo o reino. No momento central da trama todos dependem dele. Em busca de sua vingança pessoal, “J” volta à família para dar fim ao seu fardo. E os outros animais assistem, conformados. Ai nada mais emblemático do que ele pegar a avó nos braços e dar-lhe um beijo. Dessa vez apenas na testa.