A história é a seguinte. Depois de viajar aos Bálcãs e seguir para a França dos anos 20, Zach Condon resolveu passar uma temporada quieto no Novo México. Casa, conforto, home sweet home.

Na primeira parte da história do Beirut, Condon bateu o dedo no mapa e dentro de um quarto – só ele, seus instrumentos e um gravador -, montou a orquestra de sopros por qual viria a ficar conhecido.

No segundo capítulo, depois de assinar pela 4AD, Zach conheceu Owen Pallett e gravou uma opereta bleublancrouge, tão fúnebre quanto sortida, que nos mostrava uma banda disposta a ir na direção que o vento mandasse. Dessa vez, a carruagem parou na lama. Condon enfim grava um disco mundano, com todos os truques antigos: tons melancólicos, vocal lânguido, ukelele, trompetes, brincadeiras eletrônicas.

O que Zach faz, principalmente na primeira metade do disco, é arredondar uma fórmula que já conhecemos bem (aparentemente, ele inventou uma estrutura de álbum que segue a risca, mesmo que isso comprometa o material). Como quem organiza um estilo em blocos, Condon entrega um álbum que o fã desesperado por material novo certamente vai gostar, não tem erro. Eu, que acho que ele não gravou nada tão inspirado quanto Gulag Orkestar e o Long Gisland EP – ambos lançados em 2006 -, encontro aqui o reflexo de um artista que aos poucos se entrega à expectativa do público. Forçando a barra, acredito que existe um Beirut pré-Elephant Gun e um pós. O sucesso tem dessas coisas.

Na segunda parte do álbum, quando ele tenta algo diferente, fico sempre com impressão de que Zach se contém, poli o que poderia ser uma ideia nova, diferente. É ao mesmo tempo compreensível e irônico que ele agora grave este disco quando o mesmo sai por uma gravadora sua (a Pompeii Records) – criada, segundo o próprio, para ter completa liberdade criativa. Não é o que acontece. A pressão comercial é visível entre as faixas, que repetem os maneirismos do Beirut numa embalagem vendável.

A apatia de Condon reflete até mesmo na capa. Se antes tínhamos fotografias emblemáticas que só faziam ampliar as percepções em relação à arte do Beirut, agora temos um fundo vazio, com o título “a maré rasgada” (numa tradução literal) – mas que poderia se chamar the low-tide (a maré-baixa).

Para quem conhece o método da banda, o disco não passará de uma brisa. Pois mesmo o artista tendo gravado 9 boas canções, elas transparecem um compositor em constante embate – até mesmo se compararmos aos dois EPs gravados em 2009, que soam mais expansivos do que The Rip Tide (ainda que Holland e March of the Zapotec sejam apenas experiências bem triviais quando olhamos as outras tentativas de Zach).

Há, muito porém, pequenos feixes de criatividade sob o verniz pop do álbum. A faixa-título, por exemplo, equilibra uma eletrônica crua (por vezes tão lânguida quanto seu vocal) sob uma percussão fúnebre, enquanto Zach cria imagens de um passado perdido em fotografias pálidas. É por isso que não podemos desconsiderar totalmente este disco. Acho válido que ele tente aos poucos se afastar das temáticas pesadas que trabalhou nas primeiras gravações. No entanto, nada justifica um álbum tão comedido.

Enquanto Condon não compra uma nova passagem, ficamos nesse interlúdio brando. Nos próximos capítulos, quem sabe, nos encontramos novamente perdidos nas ruas escuras de Paris, nos bordéis, no frio dos Bálcãs ou num lugar novo, ainda desconhecido pelo ouvinte – tudo isso, é claro, sem tirar os dois pés do chão do quarto.