Game of Thrones – 1ª temporada (HBO, 2011) 6.0/10

Taí um texto que eu podia começar com uma brincadeira. Mas, devido a seriedade desse seriado, vou manter o tom correto. Game of Thrones vem com o selo de garantia da HBO, uma bela produção, baseada num livro muito comentado, com bons atores e uma condução impecável. Mas venha cá, você que assistiu aos filmes do Peter Jackson acredita mesmo nessa sisudez à Chris Nolan?

Eu não fiquei convencido. Inclusive me incomodo com essa postura tomada pela maioria, incapaz de repreender uma série demasiadamente elogiada. Séries tem um pouco disso, nos enfiamos no ritmo da coisa e nem duvidamos da nossa obsessão – e quem escreve é aquele que assistiu todas as temporadas de How I met your mother em dois dias.

A obsessão pelo realismo me leva diretamente a um problema recente que eu já havia discutido no meu texto sobre A origem – ainda que haja uma mão mais arriscada em Game of Thrones. No entanto, o problema da série, infelizmente, não é só esse.

Esse novo padrão à True Blood (sangue e sexo) aos poucos me parece determinante para o sucesso de um seriado – há, logicamente, exceções. No caso, Game of Thrones é mais refinado, por exemplo, do que um Spartacus – para ficarmos numa comparação de mesmo padrão. O que não dá é para negar que a série se adapta, antes de mais nada, a esse novo tipo de “produto”. E isso, ao menos olhando assim a distância, me incomoda. Há, por exemplo, uns três personagens que só funcionam como ganchos para nudez explícita. Que fique claro que isto não é purismo da minha parte, não vejo problema nenhum em se explorar sexo na TV, desde que haja alguma função aparente para a narrativa.

Não estaria sendo justo se não elogiasse o elenco e a condução da narrativa (em nenhum momento empaca e parece viver independente do livro). Destaque absoluto ao anão Peter Dinklage, numa belíssima interpretação – há outras boas atuações em personagens nem tão interessantes (caso de Sam Bean).

Ainda nesse aspecto, não consigo deixar de criticar a forma quase óbvia como a série cria uma rede de personagens-armadilha. A família Stark, a coitadinha, que se organiza na imagem de herois acima de qualquer dúvida, os justos que se escondem atrás de feras – ainda há a sub-trama do bastardo, a parte mais fraca da série. Nenhum deles consegue acarear um sarcasmo, um sorriso na ponta dos lábios como Peter Dinklage. Assim como a série, todos se levam a sério demais.

Há aqueles que defendem o seriado por ele não escolher lados, não ser simplesmente uma disputa entre o bem e o mal (como é O Senhor dos Anéis). Não acho que seja o caso, pois, durante os 10 episódios, Ned Stark (o corretíssimo) funciona como o escudo intocável. Quando ele falha (como no caso do filho bastardo), há sempre uma explicação (seríssima!) sobre o ocorrido. A família Stark é a lente transparente – é por isso que se torna impossível não querer a cabeça dos Lannister ao fim da temporada.

Tudo talvez se justificasse numa trama menos óbvia. Aqui só consigo enxergar uma história sobre a obsessão pelo trono – ou pelo o que aquela cadeira de ferro configura: o poder. O aspecto fantástico é trabalhado com todo cuidado, fazendo o espectador até mesmo duvidar da existência desses tais aspectos (o final é uma surpresa interessante). Mas te pergunto, há mesmo necessidade para esse pé atrás?

No caso, ao evitar o mergulho num mundo novo, a série acaba acumulando uma quantidade ínfima de lugares-comuns. O filho bastardo que busca redenção longe de casa. A menina que aprende a ser rainha. O herdeiro mimado da coroa. A própria relação incestuosa entre a rainha e o seu irmão parece se acomodar entre um e outro chavão pré-montado. O choque simplesmente não existe.

Aos que chamam Mad Men (que é para mim a melhor série da televisão) de novelinha, recomendo essa história: objetiva, correta, sem pontas, podada. Há algo de Gladiador aqui: soa como um grito valente, mas é apenas uma simples história de guerra. Esteja certo de que você não vai encontrar nuances muito diferentes dos da novela das 6, Cordel encantado. Ah! Mas como sou bobo! Novela não tem sangue e sexo! Dizem por aí que faz toda a diferença.