Melancolia – Lars von Trier (Dinamarca, 2011) 7.5/10

Se tudo ocorrer  como é esperado, logo choverão resenhas que trataram Melancolia como apenas mais um filme egolátra de Lars Von Trier – nelas encontraremos críticos que tentarão se esquivar do fato de que, simplesmente, não simpatizam com a figura polêmica do dinarmaquês, e isso servirá para eles como motivo para sentenciar suas obras: afrontas e nada mais do que isso. O fato é que este novo parece tomar o viés deixado após Dogville e que havia ficado frouxo depois de Anticristo: a capacidade que Trier tem de nos fazer enxergar o que de alguma forma sempre esteve entre nós – e isso ultrapassa qualquer favoritismo estilísco ou até valores morais, o diretor sabe alcançar o olhar cinematográfico em temas que dizem algo para ele tanto como observador quanto como ser humano.

Da mesma forma que me parece premeditado chamar este longa de um filme-catástrofe ou de “um filme sobre a melancolia” – ainda que estas duas características estejam presentes por toda parte, tendo o espectador o dever de acreditar ou não na premissa de Von Trier. Minha experiência pessoal: passei a primeira parte acreditando que se tratava de um experimento não mais do que coerente e às vezes até óbvio, por vezes até mesmo forçado (como é comum dentro dos filmes do sujeito); a segunda parte, no entanto, achei um assombro, ele filma tudo com uma paz e uma complacência com o fim assustadora. Esse desfecho é essencial dentro do argumento de Trier, a destrução de tudo que seus personagens (e não ele) julgam como uma entidade má, reafirma o que o cinema dele é feito: uma disposição para situar a realidade nos esquemas que ele julga instigante (tanto para o bem, quanto para o mal).

Por isso é que Melancolia está acima de qualquer metáfora ou símbolo que nós, espectadores, podemos adicionar a ele (ainda que haja plena liberdade para tal, assim como podiamos acreditar no anti-americanismo de Dogville).  A grande picaretagem de Von Trier, não é a de destruir o mundo feito – segundo a protagonista – de pessoas más (e nisso ele acaba encontrando um paralelo interessantíssimo com Árvore da Vida e seu início do mundo e da glória), mas quando permite que façamos o que bem quisermos com o fim dos tempos e com a condição da personagem de Kirsten Dunst. A metáfora principal (“um planeta chamado melancolia se aproxima da Terra”) vai por água abaixo. É por isso que me soa muito incoerente alguém gostar de Melancolia e rejeitar Anticristo, em ambos Lars Von Trier cobra essa que podemos chamar de misantropia cinematográfica. Arrombos para cá e outros para lá, Trier não se cansa das múltiplas possibilidades que sua câmera tremida lhe dá.