Super 8 – J. J. Abrams (2011) 7.5/10

Nunca gostei de Lost. Sempre achei os suspenses, romances e ganchos calculados demais. Quando a série chegou ao fim, a impressão que tive é que Abrams tinha modelado um pacote comercial por encomenda, e o desfecho, naquela altura do campeonato, era o que menos importava.

No contra-tempo das temporadas da série, Abrams dirigiu uma adaptação para os cinemas de uma série clássica de sci-fi, a famosíssima Star Trek. Apartir daí é fácil perceber como o diretor tem a necessidade de gravar filmes, antes de mais nada, nostálgicos. A aparição Leonard Nimoy, por exemplo, deve ter deixado qualquer fã do seriado com os cabelos em pé – e não é para menos. É por isso que me soa muito fácil encaixotar Abrams entre uma linha de autores de gênero, com um público-alvo muito definido. Eu poderia acreditar perfeitamente nesta última frase, no entanto, ficaria sem explicação para ter gostado muito de Super 8 e de Star Trek, sendo que não cresci nos anos 80 e nunca assisti ao seriado. Como explicar o efeito?

J. J. Abrams é um autor de poucas características estéticas (tudo que ele sabe parece ter fugido de algum longa oitentista de Spielberg), mas nunca enxergo isso como uma falha, isso porque o diretor consegue encarar a criação do plano como um processo essencial para a narrativa. As histórias que ele conta apesar de nunca ultrapassarem o modesto, sempre demonstram como a direção é feita com muito respeito às obras que ele cita. Talvez por isso, Super 8 esteja sendo encarado com um filme cinefílico, que diz respeito principalmente àqueles que assistiram ET, Os Goonies e Contatos imediatos de Terceiro Grau durante a infância.

Eu prefiro encarar o que está extendido no plano principal. Uma história sobre jovens que sonham em gravar filmes, se apaixonam com velocidade de um espirro,  decidem problemas enormes com sopros. A metaliguagem que compõe a principal premissa do filme se torna, por isso, sempre uma aliada, mesmo que sutil. E, em alguns momentos, soa como uma verdade absoluta: Elle Fanning (numa das grandes atuações do ano) ensaindo as falas, solta um “eu te amo” que vale para qualquer coisa, para o jovem Joe, para os espectadores, para o próprio gênero e – porque não? – para o cinema.

Na segunda metade quando o cenário de drama familiar abre espaço para uma apoteose de explosões, Abrams dá a cara real de Super 8. Recortes de Guerra dos mundos e até de O resgate do soldado Ryan (os dedos de Spielberg estão sempre lá), que se tornam tanto citações quanto paródias. Importante é que a história jamais perde o tom infantil, e isso é despertado quase instantâneamente no jovem Joe quando ele decide que é capaz de enfrentar sozinho aqueles cenário de guerra para encontrar a jovem de cabelos dourados. Para o filme aquilo é possível, a câmera não mente.

Talvez a grande nostalgia de Super 8 esteja no céu que Abrams teima em encaixar nos planos. Há, naquela imensidão, uma vocação para ser a resposta de todos os dilemas (uma atmosfera que se instala em diversos momentos do longa). Os olhos daqueles meninos encaram o céu sem nenhum pesar. “Coisas ruins acontecem, mas você ainda pode viver” Joe aconselha ao ser que veio do espaço no clímax. O desfecho é,  então, fundamental: quando o menino permite que o colar seja levado embora, ele se livra de todas as dores. E o objeto sobe, em direção ao céu.

A câmera Super 8 possuí todas as informações necessárias para se resolver o mistério. Ela é a verdade. Assim como ela é capaz de trazer de volta as verdades do passado (seja quando Joe e Alice veem as imagens da infância dele ou quando o grupo encontra as filmagens dos cientistas). Quem somos nós para julgarmos a veracidade da existência daquela criatura? Não possuímos câmeras como Abrams e aqueles jovens. Não é De Palma, não há mentira. Durante 112 minutos veemos a absoluta reprodução da realidade. 24 frames por segundo.