O que acontece quando o mistério acaba?

Deixa de rever filmes de Hitchcock? Se esquece dos nuances que faziam aquele início de namoro tão instigante? Larga o livro e parte para um manual de auto-ajuda? E se eu te disser que eu não sou assim tão imediato? As coisas perduram durante algum tempo comigo. Não sei a duração exata, mas minhas paixonites costumam demoram mais do que algumas horas – talvez por isso eu sempre retorne aos filmes do gordinho. Há algo na repetição do mistério que o torna ainda mais misterioso para mim – gostei mais de Os Pássaros de 63 quando o revi, depois de entender que ali o suspense é apenas uma arma da história e não ela em si.

Eu não deveria forçar ainda mais essa comparação – mas me parece muita precisa quando se fala de Abel Tesfaye -, o fato é que ouvir uma mixtape do Weeknd transmite a mesma sensação de se assistir um filme de suspense. É por isso que para um espectador atento é facílimo perceber os maneirismos da “nova” história (estão lá as guitarras oitentistas afogadas numa produção enevoada, os vocais melódicos do R&B, o auto-tune), os personagens que existem para dar ritmo ao roteiro (as meninas tristes e inseguras, os dirty lovers metidos e amedrontados), as cenas jocosas (um bar escuro com polidancers e sujeitos tristonhos, festas repletas de suicídas milimetricamente dopados). Esse capítulo novo, esse filme B do The Weeknd, podia facilmente dar um salto de gênero e se tornar uma fita de monstro.

Me impressão, que perdura desde House of Balloons, é que Abel sempre pretendeu destruir o universo machista e frio dos grandes astros do Hip-Hop/R&B (não à toa se juntou ao loveboy Drake) através de melodias efêmeras, referências que remontam a melancolia através de baixos e ruídos (de The Cure a Beach House) e letras que evocam madrugadas dolorosas repletas de faces gélidas. É sexy sim, mas nunca com um argumento frouxo. Abel é capaz de produzir climas pesados para temas ainda mais pesados, sem largar o calor do gênero ou os vocais que se distorcem até demais (vide High for This do primeiro álbum). Daí minha supresa quando numa primeira tentativa encontrei apenas um disco sobre outro conquistador barato. Fiz a viagem de novo e enfim encontrei a persona que habita canções como Wicked Games e What you Need, o sujeito que resolveu abrir o olho para o mundo, mas apenas um.

“Não me faça fazer você se apaixonar por mim, ninguém precisa se apaixonar por mim” ele nos explica com precisão em The Birds, Part 1, a melhor do álbum. É aí que percebemos que nas músicas do The Weeknd sempre há o agente solidão. Se podemos dizer que House of Balloons é o after-party apocalíptico contado inúmeras vezes por Elliott Smith, Thursday é a pré-night em que o personagem de Abel entende que a noite vai ser boa sim, mas que depois ele assistirá menininhas no chão e o vazio da janela do quarto.

Ainda que o novo capítulo seja apenas uma mostra retilínea do Weeknd mais contudente que conhecemos na primeira mixtape, aqui fica mais do que evidente o talento de Abel para compôr, há canções aqui tão fortes quanto Loft Party e Glass Table Girls (vide a mezzo fúria de Lonely Star ou a marcha retrô de The Birds, Part 1). Tudo por ser alterado na próxima cena. Enquanto isso, Abel alonga o mistério, dá aos nuances feiches ainda mais duvidosos. E eu sigo o encarando como um filme de Hitchcock: amor, suspense, obcessão e um diretor espertíssimo – a catarse emotiva (aquela que sempre nos acerta) também está lá: “Eu não me importo com ninguém, por que eu estive nessas ruas por tempo demais” sussura e as cortinas descem.