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An Empty Bliss Beyond This World – The Caretaker (Haft, 2011)

Há gêneros musicais que conhecemos por osmose. Das duas uma: ou você conheceu o jazz e a música clássica por influência dos pais ou de tanto ouvir em filmes e na televisão. É como se antes mesmo de compreender ou poder consumir música, você já tivesse esses dois estilos guardados em algum lugar do seu inconsciente. Tenho certeza também que, já adulto (ou a partir de alguma memória consciente), você acabou tendo algum momento marcado por alguma melodia clássica de vertente erudita ou jazzística. Seja culpa de um filme romântico que passava na televisão ou de algum momento perdido em que você se deparou com um som aparentemente indescritível – isolado de qualquer formato pop.

Os avôs mais conservadores sempre me venderam a imagem da crença na pureza clássica. Nunca concordei; mesmo tendo tido algum contato com as peças mais famosas da música clássica (de Beethoven à Bach) sempre fiquei do lado da estrutura pop. Ouvir este An Empty Bliss Beyond this World é bater de frente com uma sacralidade que muitos não estarão prontos para encarar – e haverá gente tratando como apenas uma colagem de jazz (que podia ser feita por qualquer indivíduo com noção básica de corte e recorte), não é o caso.

O que mais me interessa no projeto ambicioso do The Caretaker é a forma como ele tenta acessar o que há de mais cristalino no som que recria. Sem colocar uma divisão explícita entre o que é ruído e o que é canção, o maestro passa a afundar antigas melodias em samplers fúnebres que às vezes se assemelham ao pinga-pinga eterno da chuva. Mas interessante é perceber como ele trata cada faixa como uma nova oportunidade de criar algum clima. O disco passa pelos mais diversos humores sempre preso a alguma repetição. Por vezes a única imagem que tenho é a das teclas do piano descendo e subindo sem ninguém a tocar – são criados cenários fantasmagóricos, de mansões escuras repletas de corredores infinitos (que o próprio sujeito compara à cena do baile em O Iluminado).

Para fazer o ouvinte entrar em contato direto com as faixas, o artista cria itinerários que se constroem, a princípio, com os nomes das faixas. Os nomes são extensões dos temas (como em discos de pós-rock) e a partir delas formulamos a imagem da canção. Todas nomeiam as passagens do álbum como um novo capítulo da viagem do Caretaker através da sopa do inconsciente.

An Empty Bliss Beyond this World é um álbum assustadoramente conhecido por quem o ouve – talvez por nunca passar de expressões sonoras rústicas e curtas. Na página da Wikipedia é possível entender como o processo inteiro é metodicamente pensado pelo artista – a principal ideia era montar um álbum que funcionasse como os lapsos de memória que existem num paciente de Alzheimer. Acaba soando como uma explicação para as pequenas lacunas que existem entre o que conhecemos e o que achamos que conhecemos.

Talvez leve tempo para perceber (com cinco audições o disco ainda me parecia uma peça bizarra, impenetrável), mas quanto mais o ouço, mais percebo como as tentativas feita pelo The Caretaker são ousadas. Mesmo para quem resolver julgar o álbum como uma mera colagem, continuará sendo impressionante como as melodias ressurgem das sombras, como se pertencessem a uma memória antiga ou uma fotografia mental da infância. Mergulhar completamente no disco é como vasculhar a vastidão de um mausoléu – um processo quase tão instigante quanto meditar.

Com o tempo fica perceptível que este realmente não é um álbum estranho ou difícil (como alguns gostam de caracterizar certos discos), mas sim amedrontador. É uma daquelas obras-artísticas que te fazem repensar o que você pensa sobre obras-artísticas. É como enfim entrar em contato de novo com aquela imagem sua que o tempo fez questão de corroer. Eu ouço o álbum lembrando dos domingos cinzentos em que eu ficava desenhando perto da janela e volta e meia levantava a cabeça para observar a chuva caindo lá fora. Uma imagem tão dolorida quanto bela.

O quinto disco do The Caretaker é uma obra romântica feita por uma maestro nostálgico e levemente cruel. Ouvir o disco com muita freqüência é como se colocar no lugar de Jack Torrance e caminhar pelos vãos do próprio cérebro, cada vez mais próximo de uma bela lembrança ou de uma tenebrosa realidade.