Drive (Idem, 2011) de Nicolas Winding Refn.

Um dia desses eu estava discutindo com alguns companheiros qual era a real função da música. Um deles levantava a hipótese de que deveriamos ver o som apenas pela sua beleza natural – uma vibração sonora e mais nada. Contra-argumentei dizendo que me parecia muito pequeno (e até simples) escrever uma música imensamente bonita. Bela e vazia. Disse também que para mim a arte em geral deveria cumprir a função de traduzir o ser humano e o tempo em que ele vive.

Não importando o tratamento que fosse dado, da música eletrônica ao hip-hop, deve sempre haver um valor maior que se coloca acima de qualquer preferência pessoal. Depois de assistir Drive (que levou o prêmio de melhor direção em Cannes), tive ainda mais certeza de que arte, antes de ser bela, deve ser urgente, alarmante.

É estranho começar uma resenha dizendo para você, leitor, que eu pouco me importaria com a trama do filme (ainda que o roteiro seja ótimo), mas é verdade. Aqui a ambientação criada por Refn e pela trilha sonora está acima de qualquer giro que um roteiro poderia dar. Não é apenas questão de saber relacionar os momentos da trama com o som, mas sim de uma capacidade de transformar os dilemas dos personagens em extensões da trilha – e vice-versa.

O personagem principal é um homem quieto e gélido que vive uma vida dupla. Refn trata de empastar os pequenos detalhes do cotidiano dele com uma carga de synth pop (um estilo de eletrônica que vai do frio ao caloroso em segundos). Mais do que isso, o clima abre espaço para a interpretação do espectador – e garanto, vai ter gente encontrando semelhanças dos mais diversos filmes, de Taxi Driver a Kill Bill.

Pelo menos um terço do filme está nas mãos de Ryan Gosling, e ele consegue captar com extrema sensibilidade os impasses da história. Era preciso saber equilibrar as duas faces do protagonista – principalmente na mudança brusca ocorrida no meio do longa. Gosling caminha sobre as canções e adormece nas pausas, numa atuação tão silenciosa quanto astuta (do tipo que encontramos nos filmes do Cronenberg).

Mas volto ao diretor, ele sim é peça chave de Drive. Logo no princípio Refn dirige uma cena de perseguição das mais furiosas que eu assisti numa sala de cinema. Mais do que saber administrar tensão, o diretor acompanha o carro como um cúmplice – uma evidência dos acontecimentos de uma simples noite em Los Angeles. Durante uma certa altura, Refn intercala cenas da história com imagens da rodovia se abrindo para a câmera. O que ele quer dizer com isso?

A impressão é de que ele não busca apenas exibir o painel violento norte-americano, mas sim dar vazão ao estilo do filme. Por isso a violência gore, grosseira. Em um determinado momento um dos personagens corta a veia do braço de um outro e diz: “está tudo bem agora, não há dor”. Refn resolve os problemas na fúria, para depois afundar em sigilo.

Há uma câmera em que Gosling é fitado de cima de um penhasco enquanto o seu rosto é fuzilado por flashes de luz que consegue resumir tudo o que o filme tem de perturbador e desolador (os mais malandros vão pensar em Onde os Fracos Não Tem Vez dos Coen).

A história central de Drive, como eu disse, pouco importa. O que importa nos 100 minutos do longa são os planos que encaram os personagens como se questionassem seus mínimos movimentos (próximo ao fim, Refn foca a face de Gosling e a linha de um sorriso se desenha lentamente). E aí sim entendemos que esta não é uma crônica sobre um personagem em busca de paz, mas sim sobre uma ferida aberta numa cidade escura.

Este é um filme sobre um tempo, sobre o agora – nas mãos de um observador que permanece calado (também é interessante perceber que Drive não tem uma história moderna, como tinha por exemplo A Rede Social do Fincher, mas quando comparo os dois filmes, não consigo deixar de reparar como o filme de Winding Refn é imensamente mais moderno do que o longa sobre o perfil do invetor do facebook – chega inclusive a colocar em cheque o que há de somente funcional no até bom filme do Fincher). Não à toa Gosling caminhe pelos quadros sem dizer uma palavra, sem contestar um erro em sua vida, apenas seguindo seu caminho.

Logo no princípio  ficamos com o que há de mais importante sobre Refn e Gosling, sobre o diretor e o ator, sobre a trama e o personagem: “Eu não sento lá enquanto você age, eu não carrego uma arma… Eu dirijo” diz o personagem, que nunca menciona seu nome. Ele é apenas um indivíduo qualquer que pilota noite a dentro, desaparecendo e voltando a ser o que sempre foi: apenas mais um homem na rua.