(Água Fria, 1994) | Olivier Assayas | A+

Num filme de Assayas se espera por duas coisas. Número um: o momento em que o diretor tira o pé do freio e despeja uma quantidade sufocante de canções de rock. Número dois: o momento em que a imagem real se torna tão alucinante quanto um videoclipe da Björk.

Para quem já havia assistido o também delirante Irma Vep (1996), Água Fria soa como a matriz de um estilo. Mas, se o filme estrelado por Maggie Cheung se constrói através do delírio de um diretor (vivido por Jean-Pierre Léaud, o eterno Antoine Doinel, referência óbvia para este filme), aqui a estrutura alucinógena vai se instaurando ao passo que Assayas nos fuzila com imagens da sua adolescência.

O cinema de Assayas não é fácil, mas não consigo enxergar este como um filme complicado. Toda a sequência da festa consegue inserir uma imagem muito nítida dos sentimentos e desejos da juventude. Note, no entanto, que esta é uma história escrita por um sujeito que é certamente um romântico exagerado – e por isso o roteiro é tão hormonal.

Quando os dois protagonista se encontram de novo, não existe troca de palavras, nem juras de amor ou beijos, o silêncio e o fogo externalizam a sua paixão. Christine (Virginie Ledoyen) depois de cortar os cabelos num momento em que a incomplitude de sua existência tomava conta da sua experiência momentânea, rapidamente encontra o chão com a chegada de Gilles (Cyprien Fouquet) à festa.

Distanciando o mundo jovem do mundo dos adultos, Assayas consegue transformar Água fria num conto de amor exaltado pela rebeldia contra o controle. A vida que o casal escolhe é liberta de qual forma de poder que não seja a atração que um sente pelo outro. O impressionante é como o diretor consegue encontrar sutilezas nos momentos em que só a música consegue expressar os sentimentos daqueles jovens.

Ao som de Avalanche de Leonard Cohen, os casais encontram o momento de plenitude, quando a união entre eles é mais poderosa do que qualquer sentimento de pertencimento e desilusão. E o romantismo exarcebado de Assayas contribui muito para o impacto da cena, sem apelos, só sorrisos, mãos, beijos curtos: paixão sem palavras.

O filme não se resume a isso, pois toda a construção dele é feita através da necessidade quase suicida que aqueles meninos e meninas tem de afrontar o que está ali para detê-los, algo que pode fisicamente impedi-los. O ato inicial, o roubo, deixa evidente essa característica, que cresce progressivamente dentro da narrativa e se diluí na cena que eles, na grande fogueira, queimam tudo o que encontram. A barbárie, no entanto, nunca é feita na solidão, eles estão sempre agindo em grupo. Não a troco de nada decidem todos ajudar a esconder Christine dos pais.

Nos momentos finais de Água Fria, a jovem vai ao rio gelado e se banha. Em seguida, retorna  nua e deita com seu amor. Os dois entregues, enfim, ao que desejam, longe de qualquer regra ou julgamento moral. Porém, quando acreditamos que a unidade daria conforto aos fantasmas da Christine, Gilles acorda só. Na beira do rio somente um papel dobrado. É aí que Assayas mostra-se um baita diretor: aos poucos o jovem vai desdobrando o papel em busca de alguma mensagem que explicasse tudo aquilo.

Conduzido de forma mais aflitiva do que qualquer Hitchcock, cada pedacinho daquele papel se mostra um completo nada. Na última possibilidade de haver algo, ele encontra o vazio. E então, finalmente, voltamos ao começo.