A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011) Terrence Malick.

Quando tento imaginar qual é o maior filme já feito tenho a tendência de sempre acabar pensando em 2001 – Uma odisséia no espaço. Não é um pensamento, no entanto, que me agrada. Sempre acabo perdendos muitas horas tecendo novas teorias sobre a obra-prima de Stanley Kubrick – e por isso acreditado com todas as forças que aquele sempre será o filme mais rico da história do cinema, com uma quantidade exorbitante de temas e discussões que parecem estar acima de qualquer julgo crítico (e certamente não estão). Tenho a tendência de encará-lo não como uma obra de ficção científica, mas como uma grande história sobre o terror de se existir – as imagens, por isso, me soam eternamente pertubadoras.

Você vai encontrar comparações com o filme de Kubrick em quase todos os textos sobre A árvore da vida, o novo longa de Terrence Malick. Tudo isso porque aparentemente ambos tentam traçar alguma lógica, algum sentido para a nossa existência – e também discutir a essência do ser-humano. Mas não se deixe enganar (e não querendo aqui discutir qual é melhor que o outro), são filmes extremamente diferentes e em nenhum momento dialogam um com o outro.

A maior diferença está no formato. Enquanto um opta pelas circunstâncias, transformando as perguntas em conceitos quase físicos o outra aposta na fluência das imagens, nas frases soltas, na construção obcessiva e quase didática do processo de formação tanto do mundo quanto do homem (na teoria, o novo longa não se difere muito do Malick de Dias de paraíso: o ser humano, a natureza, as frases sussuradas). E é aí que surgem os principais problemas deste longa.

Malick, sabemos, é um dos sujeitos mais perfeccionistas que temos no cinema. E acredito que a grande falha do filme more na obcessão – próxima ao redundante – com que ele tenta destilhar o almanaque de regras que simbolizam a formação do caráter de um indivíduo. A mão é de ferro, pesada como poucas. Partindo da formação do mundo até o fim da vida, ele tenta acompanhar cada detalhe da formação de um menino numa tradicional família dos anos 50 (a ideia, é claro, é fazer do protagonista o elo com espectador).

Daí que me incomoda muita forma quase óbvia como ele apresenta os pequenos acontecimentos da vida. A inveja, o medo do pai, a devoção à mãe, a descoberta do sexo, a noção de fraternidade e amor. Diferente de Kubrick que aposta no terror induzido, Malick se propõe a explicar. O resultado final soa como uma grande maratona do Discovery Channel sobre o processo da formação moral de uma criança – e é importante aí ressaltar a forma ruidosa como ele filma Sean Penn, que passa pelos momentos mais vergonhosos do filme.

Como formulou com perfeição o companheiro cinéfilo Tiago Superoito, a impressão final é de uma grande apresentação de powerpoint, conduzida por um sujeito que, embora esteja evidentemente apaixonado pela força das imagens, não demostra qualquer particularidade ou sutileza.

Tendo a concordar, no entanto, com um texto publicado na Revista Cinética pelo Eduardo Valente ainda durante o Festival de Cannes, em que o ele diz que considerar A árvore da vida tanto como obra-prima quanto como lixo soa como um erro. Me parece um jogo de imagens tão sacais quanto magníficas (impossível não ficar completamente petrificado com as imagens da formação do mundo). Mas quando penso no diretor, a coisa novamente não me soa mais do que funcional.

Outro ponto que parece agir contra o próprio longa é a forma como Malick decide terminar sua busca pelo homem. As imagens novamente evocam o fervor religioso do diretor – a redenção dos personagens parece querer mostrar que, mesmo sem qualquer explicação, a estadia na Terra é nada mais do gloriosa. Nem um problema nisso, mas essa tal da declaração de amor à vida, por opção dele, soa como panfleto de culto religioso. “Ame a todos, até as folhas” diz a mãe, enquanto a câmera procura alguma paisagem deslumbrante. Soa barato, fugaz, muito pobre vindo de um diretor que antes fora capaz de produzir imagens e situações tão desconcertantes.

Não dá para negar que a experiência é peculiar. Mas, se novamente voltarmos ao principal inimigo (se é que podemos colocar assim), o todo poderoso 2001 – Uma odisséia no espaço, nos depararemos com um esqueleto diante de um corpo inteiro. Assistir A árvore da vida passa a sensação de se estar sentado estudando cuidadosamente algo que, pelas próprias palavras do filme, está além da nossa compreensão. Assistir o filme de Kubrick se assemelha a exibição de um filme de terror, as dúvidas pertubadoras transformadas em situações limite e a essência da verdade vagando no eterno nada; enquanto do outro lado Malick filma mares, florestas e sorrisos. Sorrisos. [Imagem de alguém bocejando]. Sorrisos.