abamos encontrando na música pop um diário de bordo da vida do artista – e também um diário da própria música pop.  Temos muito a discutir sobre álbuns que se despedem do mundo, aqueles que nos apresentam bandas em plena crise – prontos para nunca mais se olharem de novo.

Talvez por existirem também como uma campanha de um sonho, os Beatles nunca tenham soando tão inspirados quanto em Abbey Road (1969), a obra-prima que dá forma ao som deles. Melhor do que qualquer outro trabalho da carreira do Fab Four, este álbum é um perfeito embate do que um álbum deseja ser e o que ele realmente é. Se pensarmos em um sujeito como David Bowie essa afirmação soa redundante, mas o pensamento estético que os Beatles realizaram aqui ultrapassa os valores explícitos de um grande disco como Low (1977).

Abbey Road é o pai da criação, o Deus dos Deuses, o instrutor do álbum como um caderno de experimentos – mais acima de tudo, como um exemplar de música. Forma e contexto estão sempre unidos – expressando simultaneamente beleza e impacto, cabeça-pensante e delírio. Parte da crítica que tenta acusar a ausência de mensagem – ou a inexistência de um tentativa (como se a música deles servisse apenas para existir e não para se comunicar com o mundo) – não enxerga (talvez por uma tentativa cada vez mais pro-elitista, que faz questão de nivelar as coisas por baixo como forma de se afastar do contexto geral) a diferença óbvia que existe entre a necessidade de explorar e a possibilidade de se aventurar.

Na segunda metade, quando o álbum se transforma numa ópera-rock unindo faixas e transcrevendo eventos cotidianos, os Beatles se exibem como uma das bandas mais fundamentais que já existiram – não é ambição (guardemos isso para o Frank Zappa), não é descontrole criativo impulsionado por pura fúria criativa (isso é com o Captain Beefheart) – a vontade é de transformar a música, de caracterizar a música como o som que quebra a corrente. O adeus do Fab Four dava olá para uma nova forma de se encarar a arte do álbum.

A busca por uma deformação da forma, de um straight-fordismo deturpado pela necessidade de se desfazer de qualquer essência, faz com que os outros álbuns lançados nos anos 60 (a busca por inedistismo exarcebado) soem mínimos do lado de um álbum que configura o essencial: som e paixão, melodia e catarse emotiva (e arte antes de mais nada é um catalisador da reação, um jeito de encontrar no próprio homem uma fuga interna) – mas que logicamente, nunca se esquece de se mover para frente. Os Beatles davam adeus caminhando para frente – emoção e trabalho.

Sempre julgadas de um espírito hippie escapista quase publicitário, as mensagens de John Lennon talvez se exibam demasiadamente etéreas para quem busca uma mensagem de apego. “E no final, o amor que você toma é igual ao amor que você faz” aí está a melhor forma de iludir uma imagem, não de torná-la falsa, mas de construir um destino definido para uma aventura. Abbey Road é o que há de mais conceitual em conceitual. É uma resposta a quem ainda esperava uma banda incansável. Mas é também uma resposta a quem esperava o som de um grupo – de quatro caras que resolveram escrever música. Música acima de tudo.

Enquanto se busca cada vez mais se desapegar ao momento gigantesco (ao que sempre potencializou a experiência), assistimos um grande coro se esvaziar de sentido – e se preencher de dogmas e velhas opiniões formadas sobre tudo. Abbey Road, por outro lado, se comporta como tudo que há de menos pragmático no pop. Um álbum de corpo e alma, forma e desejo, efeito e descanso, grito e canto, disposição coesiva e explosão instintiva. É uma resposta que abre espaço para um dúvida: até onde podemos ir?