A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011) de Pedro Almodóvar.

O crítico mais rabugento pode acabar contextualizando a fase recente do Almodóvar com a do Woody Allen. Ambos acabaram ficando cada vez mais estáticos, repetindo fórmulas e sem o antigo ímpeto. Em 2011, Allen resolveu dissolver a própria ironia em um filme de tema histérico (com uma direção catatônica, que fez o filme ficar cada vez menor para mim), e Almodóvar resolveu voltar à tratar de temas histéricos com a antiga fúria descontrolada. Eis a diferença.

Este é um daqueles filmes que retorce nossa atenção ao diretor e, claro, soa como um longa que busca a todo custo acarear espanto e atenção. A conexão mais direta é com Um corpo que cai (1958) de Alfred Hitchcock e a obsessão pela reconstrução do ente amado perdido – falar de obsessão num filme do espanhol é quase redundante, mas fazia tempo que não assistíamos à um Almodóvar tão enfeitiçado por um conjunto de imagens e desejos.

É um filme metáfora do próprio estilo dele, um longa sobre o corpo e sobre a sua utilização. A história ganha o dever de ludibriar o espectador afim de promover, não impacto, mas uma discussão. É mesmo o corpo a essência do ser humano? Ou apenas um mecanismo? A resposta, eu sei, pouco importa dentro do ritmo (e do jogo de impressões) que é imprimido. Quase sem querer, Almodóvar vai afundo do que havia de mais interessante no seu cinema (e que parecia ter sido afogado em maneirismos comportados): a crueza com que ele trata o espírito humano – o animal que é regulado por tesão e raiva, nada mais.