Contágio (Contagion, 2011) de Steven Soderbergh.

Contágio, o provável último filme de Steven Soderbergh, é um filme sobre uma epidemia ou um relato de um epidemia? Parece um exemplar bem interessante para alguém que ainda tenta compreender a diferença entre imagem, palavra e som – os princípios do cinema. O retrato que Soderbergh cria de uma crise assusta muito mais pelo temor cotidiano (aquele que é real), do que daquele que deveria existir na tela, o fictício. E o longa falha em suas duas tentativas, tanto na empreitada catastrófica, quanto na falação política. É oco.

Este não é filme sobre uma doença, é sim uma filmagem do nada. A câmera não comenta o evento, ela assiste estupidamente enquanto corpos vasculham uma solução – óbvia desde o princípio. Ainda assim, mesmo cientes do desfecho, costumamos encontrar nesse gênero – o de catástrofe, o de apocalipse – um sinal de que o diretor se importa (ou não) com aquilo que destrói. Lembremos aí de Guerra dos mundos (2005) de Spielberg e Préssagio (2009) de Alex Proyas, filmes em que os diretores escolhem lados e desenvolvem um ideário que amarra os golpes à humanidade. Em Contágio, Soderbergh mostra uma situação específica como um inútil, saíndo tão ileso quanto os personagens que sobrevivem.

A despedida de Soderbergh se ausenta de significado, existindo apenas na forma de significante. E este, por si só, é apenas um exemplar feito a encomenda, interpretado por bons atores, dirigido corretamente – por um diretor que sempre dirigiu assim: objetivamente. E aí fica claro que o tal cinema de catástrofe funciona mesmo na mão de sujeitos mais abitolados, que retalham sim o planeta terra, mas antes de apertar o botão vermelho, tem a cortesia de explicar o porquê.