O Garoto de Bicicleta (Le Gamin au Vélo, 2011) Jean-Pierre e Luc Dardenne

Depois de assistir um filme de um diretor que já conheço, tento, antes de começar a pensar sobre o que vi na tela, traçar um paralelo com o que já conheço dele. Mais do que uma marca autoral, procuro encontrar uma coesão na obra de um artista. Talvez seja uma obsessão boba minha, mas sempre pensei dessa forma muito porque sempre encontrei essas características em diretores que foram me entusiasmando ao longo do tempo, entre eles Alfred Hitchcock, Tim Burton, Assayas, Tarantino. Esse (e vários outros) são legítimos autores.

Acima do próprio filme, o que gosto nesse O garoto de bicicleta dos Dardenne é como os irmãos se utilizam dessa marca indiscriminadamente. Ele não é uma filme de superação, nem um feel good movie, ele é um filme dos Dardenne. Não há necessidade de sentir pena do protagonista (ou simpatizar com a boa ação da personagem de Cécile de France), o filme não cobra entrega. O que ele faz é mostrar uma ação sendo reprimida por uma contra-ação que a repele. É um longa físico – terceira lei de Newton: ação e reação.

O garoto quer encontrar com o pai, esta é a ação principal do filme. É ela que regula as cenas da primeira metade do longa, o restante é somente acontecimentos corriqueiros: o garoto é abraçado por uma moça caridosa, o garoto recupera sua bicicleta, o garoto se muda. A contra-ação é a fuga do pai, que não quer mais ver o filho. O que acontece no caminho é tudo que há de relativo à contra-ação: o garoto marca um encontro, o pai não aparece, o garoto precisa pular o muro para conseguir falar com o próprio pai. O realismo dos Dardenne não precisa ser grosseiro para fazer o protagonista relutar sua própria realidade; ele somente reluta como resposta ao que acontece com ele.

Este é um raro filme sem qualquer maneirismo. Ele é essencialmente uma história de um corpo que, depois de ter aprendido de forma cruel a se afastar, não deixa nada entrar em seu caminho. O acontecimento passado que o impediu de ir ao encontro daquilo que queria regula sua ação futura, a de fazer o que bem entende. O garoto de bicicleta é uma obra naturalista, um romance de tese.