(Restless, 2011) | Gus Van Sant | B

Lá pela metade do filme, os dois personagens de Inquietos encenam o momento que todos esperam dentro da premissa do longa: a cena em que Annie (Mia Wasikowska) morre. Ao terminar o pastelão, com direito a muito “eu te amo”, os dois percebem o quão ridícula é a tal cena – a qual, desde o princípio, temos certeza de que acontecerá. A partir daí é possível encontrar um comentário bastante blasé sobre o próprio cinema indie. Mas prefiro ver de outra forma. Como nunca antes, Van Sant não está preocupado com o final – da mesma forma que a morte deixa de ser seu tema para ser somente mais um personagem.

Diferente do tom pragmático da obra-prima Elefante, aqui o diretor não está mais interessado em compreender, existe apenas uma disposição trágica (como é tradicional na filmografia do homem) e inevitável assombrando o convívio de dois adolescentes. Essa expectativa é o que potencializa as ações do filme. Enoch promete a Annie que ajudará ela a se preparar para quando o momento chegar – numa busca claramente pessoal, afim de entender e dominar a ideia de morte (Enoch tem a companhia de um fantasma, um kamikaze japonês da segunda guerra mundial).

Enquanto os outros espectadores da sessão enxugavam as lágrimas, fui tentando enumerar na minha cabeça o número de situações e opções do filme que deixavam bem claro o total desinteresse de Van Sant pelo viés dramalhão que o roteiro lhe oferecia. Nem mesmo quando podia executar uma forma comum de catarse ele se entrega – nos momentos emotivos cruciais ele busca abrigo nos contornos do rosto dos atores (a câmera gruda na face dos dois).

A despedida de Annie é filmada como um conforto, o fantasma amigo de Enoch enfim ganha um companhia. E a adolescência instável de Van Sant passa compreender um pouco o poder do acaso. O mesmo acaso que matou os país de Enoch num acidente de carro. O mesmo acaso que fez ele e Annie se conhecerem num funeral. Inquietos não é um dramalhão, mas uma forma plena de filmar uma passagem da vida. Não há à toa o nome de Darwin é dito tantas vezes: Gus Van Sant acompanha um processo natural. Não há à toa Enoch desenha o corpo dos dois no chão como se estudasse um caso particular.