Acompanhar o cenário musical coloca o sujeito em cheque durante quase todo o tempo. Diferente de outras artes, a música cobra de quem se obriga à entendê-la um fator externo que a contextualize ao presente. O sujeito acaba se situando entre duas funções: a de apaixonado por música e a de crítico. A ausência de uma delas torna a outra nula. O homem chato não vive sem o alucinado irracional. O crítico sem paixão se esvazia.

Durante todas as audições existe um algo dentro de si controlando o que escapa pelas caixas de som – existe um comando inerente à própria experiência da pessoa sempre se comunicando com a música (são recortes de referências, alguns dogmas, ideias, conceitos). Afogado em métodos, o crítico acaba não só sufocando a música, mas a si mesmo.

Chega o momento em que se torna natural perguntar: é mesmo necessário amarrarmos a música à um estribo teórico? A experiência em si não deveria minimizar qualquer noção de modernidade e representatividade? Sim e não. Acredito que não podemos (e nem devemos), deixar de enxergar que arte precisa sim de um contexto temporal. Sem uma definição para o presente, não há futuro (ou passado). E o homem é regulado acima de tudo, pela noção de que nasce, convive e morre. Passado, presente, futuro. Sem isso, ele não é nada.

É por isso que deve existir alguma objetividade na função de contextualizar uma obra. Não à toa se discuta frequentemente o reforço ideológico criado por uma crítica que vê no rock uma intenção revisionista. É uma defesa justa, compreensível, capaz de criar na própria obra uma noção de pertencimento e relevância. É também uma forma muito egocêntrica de excluir o restante de um cenário.

Ouço Grace for Drowning, o segundo álbum solo de Steven Wilson (front-man do Porcupine Tree), e tento entender seu momento. Ele é definido por quase todos como um disco de rock progressivo, um estilo que aos poucos foi se esvaziando de sentido. Talvez porque grande parte das bandas dos anos 70 tenham deixado a impressão de que a forma sempre vinha antes do conteúdo, sendo por isso cada vez mais complicado dar alguma consideração ao seu legado.

O caso aqui é outro. Há uma âncora que prende Wilson ao virtuosismo prog de bandas que tentavam conquistar o mundo com todo de tipo de artimanha – faixas longas como Raider II explicam isso.  Por outro lado, o disco deixa clara a busca de Wilson por uma sonoridade desgrudada do manual setentista (King Crimson e Pink Floyd principalmente), que revela o artista que existe dentro do fã. Essa separação é a mesma que existe dentro de cada autor de blogs. Grace for Drowning nos revela ao mundo como seres nostálgicos buscando algum sentido para nossos próprios vazios – a necessidade de encontrar um sentido maior para a música é a nossa busca solitário, nosso filme de gênero.

Wilson se esconde nos próprios vícios para poder simultaneamente ter fôlego para projetar uma canção-resposta. A longa-duração permite à ele ir do que há de mais tedioso no prog-rock ao que há de mais fatal na música pop. Num dado momento, ele se esquece da produção jazzística e das guitarras eufóricas, e acaba se aproximando belamente do som de câmara de um Sufjan Stevens. Postcard é uma das faixas mais bonitas do ano, e é quase tímida, cuidadosa. E o principal: muito distante do progressivo setentista, ainda que ela jamais ultrapasse o gênero. A poesia escapista e bucólica de Wilson se relaciona diretamente com as concessões que ele faz aqui: “Cuz all that matters disappear when I lost you”.

Corrompendo os próprios ideais, o crítico acaba se deixando levar pela beleza das faixas. Enquanto contextualiza não a obra (que é sim um pouco perdida), mas a intenção do artista. O homem por trás do solos de guitarras e dos efeitos do melotron. E novamente esta aí a principal função da arte: colocar o homem no pedestal. Se estamos num disco clássico, nada mais justo de encontrar nela uma disposição renascentista. Aproveitar a viagem, mesmo que no fundo ela seja justamente como a vida: não faça sentido algum.