O primeiro capítulo da aventura, House of Balloons, retorcia o personagem de Abel Tesfaye em diversos passeios pela noite: a noite chapada (em Glass Table Girls), a noite de sexo (em The Morning), a noite do amor desesperado (em Wicked Games). Era quase um filme do Fellini. Abel jamais deixava o dia transparecer as canções. Os mistérios seguiam até o fim do disco. O mesmo acontecia em Thursday, a continuação, que repetia o R&B enevoado e o discurso gênero-destrutivo, cada vez mais sexy e mais redundante.

Echoes of Silence é capítulo onde as cortinas abaixam, mesmo que elas desçam antes que Sherlock tenha descoberto todos os segredos de Tesfaye. É um disco muito bom por conseguir materializar as próprias intenções do artista; no twitter ele avisava: “espero que não se irritem com as novas ideias”. Não é o caso, no entanto, de um avanço absurdo dentro do próprio estilo: lá estão de novo as baterias mezzo-orgânicas, as melodias que se desconstroem, o discurso auto-crítico. Mas cá estamos diante de algumas novas ideias.

O cover de Dirty Diana do Michael Jackson, por exemplo, puxa a guitarra para a parte da frente da produção, sem mergulhos emaconhados, é um canção intensa do começo ao fim. Também sem vocação para a delicadeza sexy de House of Balloons, Iniciation funde o vocal mais emotivo de Abel com um vozeirão monstrengo de auto-tune a Tyler, the Creator, é a faixa mais musculosa que ele gravou. Same Old Song, que nem está entre as minhas favoritas, se constrói com um riff minimalista (R&B via The XX) antes de cair num refrão boboca. São mudanças feitas com muita precisão, feitas na ponta do lápis.

Há sim um tom de despedida nesta última mixtape, mas o que prevalece é o próprio medo pessoal de sofrer uma forte desilusão. “Eu vou te acordar como uma profissional, e você vai aguentar como uma profissional, babe” ele avisa à jovem de Outside. E fica evidente como o capítulo anterior escondia as cenas mais tristonhas em cenários de sacanagem e de abuso de drogas. Aqui o discurso fica mais seco, aqui ele toma consciência da própria insignificância: “você só me quer porque o sou o próximo”  ele diz em Next.

Abel parece ter entendido que o cenário indie possuí essa ambivalência: em um momento você é rei, em outro um zé-ninguém. Echoes of Silence é um álbum do personagem Weeknd, mas é o disco que mais enxergamos o artista em real desespero: “Eu não tenho medo da queda, eu já lutei com o chão antes” conta Abel dividindo a cena com as menininhas de histórias como The Birds Pt. 2 e The Party & the After Party. Não à toa surgem declarações infantis e bobonas à 808’s & Heartbreak: “eu sei quem você é, você é aquela menina que não acreditava que fosse ir tão longe”. Diferente da certeza corrosiva de Thursday, este é um álbum inseguro.

É também, o álbum chocante, ou aquele que tenta com mais intensidade nos chocar. “Eu amo as guitarras” comentava a personagem de Life of the Party logo no início da canção. Essa era a ilustração da mulher do The Weeknd, aquela que fazia um comentário seco sobre o que acontecia. Da mesma forma como a personagem de The Party só existia como mulher enquanto ainda estava vestida, depois ela passava a ser apenas mais uma no chão da sala. Aqui é Abel que faz os pedidos, ainda assustadores, mas quase oprimidos: “Eu só quero uma coisa de você, que você conheça meus meninos” em Iniciation; “Você pode pagar para ter o meu amor” em Next.  A macholândia abre espaço para o indefeso que pede ajuda para sobreviver no próprio planeta. Abel desaprende a respirar: “Não deixe a minha vidinha” ele implora na faixa-título.

Apesar de uma ou outra investida interessante, como música, Echoes of Silence é mais murcho do que a primeira mixtape. Sem contornar as letras por longas narrativas (como aconteceu anteriormente), ele acaba indo buscar sustentação em formatos mais comuns de R&B – algumas faixas parecem miniaturas belíssimas de faixas anteriores (caso de Outside, principalmente). Nada impede que Abel force as colunas de ecos e encontre alguns novos rumos para faixas mais tímidas, como acontece no clima oitentista de Montreal – sem um refrão, quem nos toma pela mão é a melodia, que instaura um climinha doce-amargo.

E o disco acaba como se tivesse explicado tudo que precisávamos saber sobre o ano do The Weeknd. O que nos instiga a voltar outras vezes a essa mixtape é a sensação de que ela deveria dar cabo de um mistério. Não perca tempo correndo atrás de pistas, Echoes of Silence finaliza apenas um pedaço dessa anedota. Se tudo correr certo, Abel se vende e a coisa fica ainda mais plástica, publicitária, cafona e babaca. Tudo que pedimos de um sujeito bruto e infantil. Mesmo que ele continue a se auto-destruir com tudo que esta a sua volta, de uma coisa não dá para duvidar: em 2011 o anti-heroi pós-moderno nunca soou tão desiludido com absolutamente tudo e todos.