Lizzy, sem dúvida, jamais pediu para que você a amasse. Nunca pediu para que você aceitasse seu novo estilo, seu novo nome. Enfim, Lizzy nunca teria dado continuação ao personagem Del Rey, sem que a coisa tivesse dado liga. O monstro de lábios carnudos nasceu como um produto do meio: e a culpa disso tudo é, em grande parte, nossa. Quem escolheu abraçar uma artista nova no escuro fomos nós. Não é culpa de um site ou de outro. Lana é também um pouco como a comunidade indie e o circuito de blogs de música: uma criatura feita de colagens, ainda sem uma grande ideia do que fazer da vida, um outdoor de conceitos mal resolvidos.

Daí que é perfeitamente natural a mesma “comunidade” ter uma reação adversa à sua própria imagem. Lana Del Rey é uma mentira, um fruto de uma propaganda bem feita. E talvez seja essa a principal característica que me aproxima do primeiro disco da personagem, Born to Die. Se para os mais práticos o álbum é uma expectativa – uma tentativa de resposta que a artista nos devia depois do single mais rodado de 2011, Video Games – para mim, trata-se de uma fotografia muito clara de um tipo de paixão por compartilhamento, sem falar de uma vontade masoquista de apostar em cacos.

Por isso acho interessante abraçar o disco, mesmo com seus defeitos e sua falsa identidade. Born to Die é um trabalho que, suspeito, teria sido visto como uma obra, anote aí os adjetivos, esquizofrênica, descontrolada, ousada, auto-irônica, caso o sucesso de Lana não tivesse acontecido. Tanto para haters quanto para os lovers, Del Rey se tornou um objeto. A reação é óbvia, próxima ao ridículo. É como o próprio álbum, uma tentativa de se explicar, de dizer: “desculpe gente, não é bem assim”.

Del Rey soube vender a imagem de uma menina que pode ser malvada e frágil, trágica e babaca, nostálgica e moderna, rock e hip-hop. Claro, na hora de discutir música, Lizzy se esquivou e apostou num time de produtores que aparentemente não compreende nadinha de sutilezas (numa onda de super-produção que quase faz o disco mais recente da Florence + The Machine parecer leve). Mas não é isso que fazemos quando não sabemos como explicar um guilty-pleasure? Não apelamos para uma penca de adjetivos que no fim das contas não acrescentam em nada ao álbum.

Depois de despejar as canções que aparentemente deram certo (Off to the Races, Blue Jeans e Video Games), o disco vai se mostrando uma partícula frágil, uma coleção de sobras da memória de uma menina suburbana que deve ter crescido ao lado de um rádio (e lá está uma homenagem à essa paixão radiofônica): há baladas, lovesongs, raps, amor e sofrimento, cool e geek, trilhas sonoras de filmes teen e lovestorys.

Born to Die é um título justíssimo para o hype, o meme, o acontecimento. Um algo fugaz, que já é fabricado com o prazo de validade perto de vencer. Sem vida eterna, Lana avisa a ela e a toda uma comunidade: “Baby, you and I, we were born to die”. Honesta a moça afinal de contas.