(Tinker, Tailor, Soldier, Spy, 2011) | Tomas Alfreds0n | A

Se você me pedisse para explicar o roteiro de Deixa Ela Entrar (o original, não o remake americano), o filme de 2008 que colocou Tomas Alfredson no mapa, eu passaria vergonha. O que eu posso te oferecer é isto: “É um filme feito sob uma fotografia muito escura, um conto de vampiro moderno feito por um diretor que aposta mais na sugestão do que na exposição”. O roteiro admito, pouco me lembro.

Eu passaria vergonha ainda maior se você me perguntasse o roteiro desse O Espião Que Sabia Demais (tradução vagabunda para Tinker, Tailor, Soldier, Spy) que vi não tem nem uma semana. Pior do que não me lembrar é dizer que ainda não tenho certeza do que aconteceu na tela. O roteiro está ali somente para nos confundir. E aviso logo: quase não prestei atenção na história. Então dá para entender porque parte da crítica que encara cinema como somente uma história contada na tela tenha encontrada nada mais do que um terrivelmente confuso conto de conspiração durante a Guerra Fria.

O filme é isso também, é verdade. Mas não só. O ponto de partida pra mim é a atuação de Gary Oldman, que interpreta um ex-membro do serviço de inteligência britânico. É uma atuação silenciosa, quase muda. Diferente, no entanto, do silêncio grosso que ostenta, por exemplo, a também brilhante atuação de Ryan Gosling em Drive (Nicolas Winding Refn, 2011). Oldman transpira mistério. Ele representa uma conexão direta com a personagem de Lina Leandersson de Deixa Ela Entrar. Ambos são incógnitas: pessoas frívolas, monstros da calada da noite. E é dos dois que a película importa a atmosfera.

Alfredson filmou tanto em 2008 como agora um filme de terror.

O pretexto é da Guerra Fria. Mas é nos personagens que o diretor encontra a fonte para instaurar o clima de pânico, de espera dolorosa. Todos os que sentam a mesa parecem, num primeiro momento, seres intransponíveis. Homens de aço. Vampiros da informação. Pouco a pouco, Oldman vai triturando os seus ex-parceiros. É o contra-posto da ação agressiva da menina que defende (e explora) o amigo em Deixa Ela Entrar. São, afinal de contas, filmes gêmeos.

E, como nas pequenas circunstâncias do anterior, Alfredson está em todas as tramas. Dando espaço para que a fotografia esfumaça (e escura) dê às situações um algo quase perturbador. E aí até a confusão do roteiro se torna justificável e o drama se intensifica.

A trilha sonora com toques jazzísticos é quase uma opção óbvia, por sorte, ela não se limita a isso: o final filmado ao som de uma música quente e rápida é uma belíssima surpresa. Mas nem por isso o filme deixa de acabar quase como um susto.

Sigo sem entender exatamente o porquê da cada fato. Porém, quanto mais penso nas cenas soltas por si só (a conversa de Oldman e da gordinha no quarto, a cena da festa e, a melhor delas, o caso de amor de um dos espiões), mais o filme cresce na minha memória. Quase como um filme mudo, sem palavras. Talvez isso explique porque Oldman demora quase meia-hora para falar uma só palavra.

Nos filmes de Alfredson não é necessário falar, as imagens nos mostram o suficiente.