(Hugo, 2011) | Martin Scorsese | A

Desde o princípio da carreira, Scorsese fez filmes sobre referências. Não tão estilizado (ou abertamente contrabandista) como um Quentin Tarantino, mas igualmente interessado na possibilidade que o cinema tem de refletir a sua própria paixão pelo cinema.

Entre todos os filmes da extensa filmografia do homem, Hugo (2011) talvez seja o mais escancarado, principalmente porque é – acima das obras-primas – o longa que melhor explicita o que a projeção de imagens na tela significa para ele. E aí fica fácil aceitar uma citação tão óbvia quanto aquela do menino sendo trancafiado num prisão idêntica à de Antoine Doinel em Os Incompreendidos (1959).

Mais do que o simples O Artista (2011) que agrega a tal “homenagem ao cinema mudo” (inédita, é claro, para que nunca assistiu Hsiao-Hsien), Scorsese vai ao fundo da ideia de cinefilia – e faz mais do que uma homenagem crua, realiza um filme máquina do tempo ou, como andaram colocando, uma viagem com Martin Scorsese pelos primórdios do cinema.

O genial da brincadeira é que, enquanto Scorsese vai apresentando ao público como era o cinema de Méliès (afinal, assumimos que Hugo é quase um filme infantil), o diretor vai descobrindo uma nova forma de filmar – impossível escapar dessa afirmativa: é o melhor uso de 3D desde Avatar (e com uma função até mais bem definida do que a do filme de James Cameron).

É um longa bem espertalhão também. A montagem nunca deixa o público se afastar da história, mesmo que o roteiro nem seja dos mais convencionais para o espectador de fim de semana – há um personagem fundamental para o enredo que é apresentado quase no fim do filme (o estudioso de cinema), assim como há personagens esquecíveis que o roteiro utiliza apenas como alívio rotineiro (o casal de velhinhos da estação de trem, por exemplo).

A tentativa é de fazer o início de uma paixão soar como um verdadeiro conto de fadas. Impossível não encontrar o próprio Scorsese na figura do protagonista; o que torna justificável emocionar-se com a cena em que Hugo e a amiga vão ao cinema pela primeira vez: é como enxergar a imagem do diretor por trás dos personagens – o reflexo de um sujeito que aprendeu quase tudo que sabe dentro de salas de cinema.

No fim da contas, Hugo nos explica muito sobre a homenagem dentro do próprio cinema. Enquanto O Artista mira o apelo estilístico da imagem (e acaba quase sem querer caindo na obviedade), Hugo compreende à dimensão principal dessa imagem: a capacidade que ela ainda tem de nos colocar em contato com um novo mundo – mesmo que esse seja muito parecido com o nosso. O resto é poesia pra cinéfilo chorar.