(The Girl With the Dragon Tattoo, 2011) | David Fincher | B+

O novo filme de David Fincher poderia encerrar a carreira do diretor. E eu, que nem sou grande fã do sujeito, entenderia como um belíssimo final para uma filmografia. A adaptação dele para a série de sucesso, Millenium, funciona perfeitamente como um sumário das suas ideias como autor. Mais do que isso, reuni todas as principais características de seus protagonistas em um só personagem.

A história funciona como um passeio de carrossel por diversos temas que o americano percorreu durante os anos: da sociopatia à veneração ao moderno. A abertura, por exemplo, resgata a linguagem de videoclipe muito presente em Clube da Luta (1999), sem parecer descolada das intenções visuais do longa (e a versão eletro-punk de Immigrant Song do Led Zeppelin, talvez indique que Trent Reznor deveria largar seus projetos alternativos para gravar um disco de covers com Karen O).

Claro, o início não deixa de ser um escândalo visual, mas nessa altura da filmografia, Fincher permite a si mesmo concessões que talvez destruíssem o filme. É sem dúvida, o longa mais pessoal do homem. As imagens funcionam porque, diferente do que acontecia em A Rede Social (2009), Fincher entende que cinema pop é feito principalmente de catarse. Se o filme sobre o perfil do inventor do facebook se continha, aqui a outsider (Lisbeth Salanger) caminha pelos cantos nos surpreendendo não por ser uma frágil menina interpretando uma rocha, mas sim porque o personagem está disposto a nos deixar conhecê-lo.

A interpretação de Rooney Mara é idêntica à de Jesse Eisenberg (o Mark Zuckerberg de A Rede Social). Ambos traçam o perfil de uma geração que se acomodou completamente com a possibilidade de isolamento que a internet permite. A diferença é que, na tradição do cinema violento, Mara consegue dar ao personagem um tom mais instintivo – e menos adolescente do que o de Eisenberg. É de muito longe a melhor atuação do ano.

Sedento por explicações, a investigação acontece exatamente como acontecia em Zodíaco (2005), pelos olhos dos investigadores. Sem ir muito fundo em informações que apenas entediariam o espectador, Fincher filma o impacto daquele projeto na vida dos personagens. E aí novamente nos surpreende por nos apresentar uma visão muito dura do mundo moderno. Além dos serial-killers e dos reclusos, Fincher nos mostra as aversões à coexistência. Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é sim um filme fatalista, mas que ao invés de mostrar interesse nas explicações, se concentra na capacidade que estas imagens tem de nos chocar (é, por isso, um filme irmão de Demonlover do Oliver Assayas).

Trata-se, no final das contas, como um tratado de admiração e aversão ao moderno (na linha de um Radiohead fase Kid A). Um sentimento que todos temos desde a virada do século (a tecnologia nos aproxima ou nos distancia?). O que explica, pra mim, porque a faixa de Trent Reznor com Karen O traduz o filme: uma antiga canção interpretada pelo viés eletrônico. Enquanto Reznor e O modernizam a canção do Led Zeppelin, Fincher moderniza o cinema pulp.

Sem necessitar de tantas cores e explosões (que inundavam as cenas de Clube da Luta), Fincher fez um filme que é em si uma coleção de cores e explosões. Um filme catarse. Mas é exatamente assim que ele enxerga o cinema. Uma corrida que nos tira o fôlego. E aí fica fácil explicar porque aquele final é tão desolador: depois de enfrentar todas suas barreiras (psicológicas  e físicas), a protagonista ainda assim não consegue o que quer. Algum conforto.