Acho a indústria da arte (se é deveríamos chamá-la assim) um tanto curiosa. Conhecemos bandas novas, passamos a admirá-las por aquilo que foram durante os meses em que o seu bom disco rodou em nossos players. Anos depois, quando a mesma retorna com um disco mais frouxo e menos intenso do que o anterior, acabamos declarando sua mediocridade. É necessário admitir que nem todas as bandas do planeta são capazes de evoluir.

São raros os casos de eterna busca por assimilar novos enigmas, reconstruir o próprio som como novos elementos. Ou melhor: são raros os casos em que isso acontece sem que a banda tropece na tentativa. É quase inevitável, uma hora elas batem de frente com as próprias limitações.

Há, também, caso de bandas que começam compondo dentro de um cercadinho ideológico muito restrito, feito para pequenos nichos. Este é o caso do início de carreira do Beach House – uma banda que existe realmente desde 2010, o ano de Teen Dream. Antes de assinar por uma grande gravadora o duo de Baltimore compunha pequenas canções que destilavam uma sensibilidade psicodélica sob ruídos de shoegaze, quase sem nenhuma particularidade.

O salto para Teen Dream foi fatal. Tomando consciência do próprio estilo a banda foi iluminando diversas referências (soul music, R&B, jazz e pop) sob o mesmo painel enevoado das primeiras gravações. A sensação foi a de assistir dois artistas saindo do armário, ilustrando claramente o que entendem por universo particular.

Bloom tenta nos provar que as armas do Beach House não haviam sido todas gastas em Teen Dream (que segue sendo o melhor álbum que eles gravaram). É um disco muito diferente do anterior. Dessa vez o duo está menos interessado em ganchos e em êxpor uma espécie de beleza pálida, Bloom arrisca quase sorrateiramente. O risco que a banda corre é de não conseguir agradar o público que espera uma continuação para os galopes de faixas como Used to Be. Esta, para a sorte de quem sempre busca algo novo, não é uma continuação direta.

O véu melódico torna-se instantaneamente misterioso. É como se enfim Victoria Legrand resolvesse homenagear David Lynch, de quem ela diz ser fã número um – e a capa não nos deixa mentir. O interessante é perceber que Legrand toma o mistério de cada faixa muito a sério, com muito cuidado para não se repetir e nos deixar cair no mesmo terreno de antes. A guitarra de Alex Scally circula horizontalmente sob os tons enevoados como quem nos dá uma única brecha dentro de uma sala de gás.

Lazuli, o melhor momento, começa com um teclado deslizante, enquanto a poeira de dream pop cresce no pano-de-fundo. Muito embora nos faça lembrar imediatamente de Norway (por causa dos suspiros de Victoria Legrand no princípio), é fundamental perceber como a faixa ao invés de morosa e clara, é obscura e quase estática.

O contrabalanço das duas faixas é perfeito para enxergar as mudanças feitas de um disco para outro. Enquanto uma descansa em nossos ouvidos – procurando uma beleza estável -, a outra vai se misturando, quase como uma memória antiga – é uma canção que acaba me colocando de volta em contato com as imagens surreais de Cidade dos Sonhos (2001). São, claro, imagens obscuras, desfocadas; mas Bloom é isso, dark e trêmulo (não à toa aparecem algumas referências ao pós-punk setentista e ao synthpop).

Acima de tudo o disco me mostra como o Beach House aos poucos vai deixando a soleira do shoegaze com pitados de psicodélicos, se aproximado de uma sonoridade mais dúbia, massuda e talvez até mais firme do que a anterior – se aproximando de uma delicadeza sagaz a Slowdive.

Não é a troco de nada que as letras deixam pouco a pouco o cenário surrealista para adentrar um cenário mais pé no chão. Myth, por exemplo, é uma campanha contra a interiorização dos seus problemas e noções particulares: “se você construir um mito para si mesmo, saiba que informações fornecer. Você sabe o que vem depois disso? Felicidade momentânea”. Legrand deixa as preocupações da vida comum escaparem por entre os versos – a estratégia de Teen Dream era de nos colocar diante de imagens bonitas e passageiras, fins de semana mágicos.

O essencial é que enquanto a banda vai remodelando o próprio catálogo, ela continua a resgatar detalhes que nos mostram claramente que ainda se trata do Beach House. E não há sensação melhor na música pop do que a de enxergar a olho nu, uma banda encontrando novos formatos para um estilo que já é tão seu. O melhor de tudo sabe qual é? É que Irene, a última faixa, aponta para longe – muito longe. Talvez seja a hora perfeita para chegarmos a conclusão de que essa aqui não é uma daquelas bandas passageiras, mas uma daquelas capazes de evoluir e sempre nos encher de orgulho. Bloom evidencia como as transformações podem ser simples desde que sejam capazes de novamente nos maravilhar com uma forma particular de beleza.