(Pina, 2011) | Wim Wenders | B

Teria Wim Wenders recuado o seu olhar para deixar o que resta de Pina Bausch escorrer pela tela? Ou o caso é mais fellinesco: teria Wenders recuado por falta de criatividade? Enquanto muitos optam por acreditar na primeira opção afim de dar vazão ao estardecedor espetáculo que acontece na tela; eu, cada vez mais, fico convencido que a segunda opção é a verídica, e também a tônica da carreira de Wenders pós-anos 80.

Como espetáculo Pina é perfeito. Duas horas de um ballet de cores, danças imaginativas, expressões corporais, de uma trilha sonora muito versátil (de eletrônica ao jazz) e de um 3D que intensifica ainda mais a função do espaço dentro das coreografias. O que Wenders faz? Empapa a misè-en-scéne de uma beleza plástica – praticamente impossível não se emocionar com um ou outro momento. E, por isso, Pina (o filme) sobrevive.

É justamente por causa desse esforço estético que a justificativa de que Wenders teria se contido para que Pina (a artista) aparecesse, se destrói. O longa, inclusive, só foi realizado porque finalmente o diretor conseguiu a plataforma que precisava para ele: o 3D. Esse não é um projeto novo.

Enquanto o espetáculo visual respira, a parte do cinema acaba quase inteiramente passando em branco. Wenders faz as tradicionais entrevistas como se conversasse com fantasmas. Nada que é dito nos ajuda a entender os motivos cinematográficos do diretor alemão.

Se por um lado a absurda capacidade expressiva de Pina Bausch continua a nos impressionar cena após cena (a minha preferida é a da dança ilustrada na foto), do outro o argumento do artista principal (o diretor do longa) torna-se cada vez mais solto – e não é caso de sutileza, mas de uma anemia, de uma transparência.

O resultado final é uma belíssima apresentação, digna de todos os arrepios que tive durante a sessão, mas que não justifica a maior função do cinema (e não da dança que vemos na tela): a possibilidade que o diretor tem de comentar e interpretar as imagens que admira. Fiquei sabendo bastante sobre a arte de Pina e novamente me frustrei com a de Wim Wenders.