(Shame, 2011) | Steve McQueen | C+

Os personagens de Shame e Drive (2011) podem ser facilmente emparelhados: ambos acabam aderindo à forma mais natural de seu ser; ambos são criaturas solitárias; ambos estão trancafiados numa cidade que não lhes oferece respostas. Ryan Gosling e Michael Fassbender interpretam figuras que se assemelham em seus estímulos traumáticos – e o silêncio é a solução de ambos para estes dilemas.

O que os diferencia é a posição dos seus diretores. Para Winding Refn, o motorista é apenas uma engrenagem de um mundo violento. Para McQueen, Fassbender é um resultado, uma expectativa. Há interesse nas duas partes, mas enquanto Refn observa com um olhar particular (seja através da trilha sonora ou seja através da estética retrô e videoclipesca), McQueen apenas nos mostra o drama.

Se Shamefosse somente isso, um encontro entre um olhar objetivo e um personagem em crise, o filme seria apenas medíocre. Acontece que, para suprir a ausência de um comentário mais perspicaz, McQueen tenta ilustrar o centro caótico do problema do protagonista com uma enxurrada de colagens visuais. Soa nos piores momentos como um catálogo de arte em desuso – as referências no colorido e no tom dreamy a De Olhos Bem Fechados (1999) de Stanley Kubrick são vergonhosas, medidas quase desesperadas.

A cena inicial em que Fassbender fita uma mulher no metrô se aproxima do ridículo. Enquanto temos o primeiro contato com a fome sexual do protagonista, McQueen tenta potencializar a cena com uma trilha sonora dramática em ritmo crescente. Recurso que ele usa indiscriminadamente em busca de catarse emotiva: vide a câmera colada no rosto de Fassbender durante cenas mais trágicas.

O que poderia ser apenas um bom filme sobre uma condição (sobre um problema do mundo moderno) acaba se tornando um desfile agoniado de um diretor que ainda não domina as suas próprias intentonas artísticas. McQueen é tão obcecado pela construção visual de seu filme quanto seu personagem por sexo. Fica fácil entender porque assim como o personagem, o diretor perde completamente o controle.