Devo admitir que tenho certo medo de escrever sobre bandas de nicho. São bandas que fazem um som tão mais tão particular que me sinto um intrometido comentado sobre uma mensagem que claramente não quer ser contestada. Certas bandas simplesmente não querem qualquer reconhecimento. Querem apenas existir.

O Poliça, uma pequena e recém-formada banda sueca, provavelmente nem está se importando com o pequeno fuzuê que seu disco causou (não estou falando de best new music na Pitchfork ou uma matéria na NME, mas uma certa atenção que o disco ganhou da blogoesfera). A evidência é que, mesmo com a onda massiva de downloads e resenhas, pouco se pode descobrir sobre eles. Não sei o nome do produtor do disco, o nome da vocalista, não sei de onde surgiu a ideia de gravar um disco. Não sei nada. E não há forma de descobrir. Poliça é tão misterioso que podia muito bem nem ter forma física – uma banda vindo do além.

É uma tendência comum do indie rock. Não precisamos conhecer os integrantes (ou encarar suas faces) para nos aproximarmos do que ouvimos. Nos tempos de projetos visuais como Lana del Rey, talvez eu prefira nem ver como os meus novos heróis se parecem. No entanto, admito que gostar de ler uma entrevista com a vocalista do Poliça, que aqui vou chamar de Blá-blá.

Aposto que Blá-blá tem muito a dizer sobre a música pop. Ou melhor, sobre a música pop que ela cresceu ouvindo. Tenho certeza de a moça é fã da atitude másculo-doce da Björk e da PJ Harvey. Também tenho certeza de que ela passou tardes inteirinhas ouvindo The Cure enquanto os colegas da mesma idade jogavam bolas de neves uns nos rostos dos outros. Blá-blá provavelmente preferia ficar dentro de casa jogando um bom videogame enquanto ouvia Cocteau Twins.

O projeto, que ganhou esse nome estranho de Poliça, aposto alto: deve ser só dela. Uma mulher que no meio de um sax robótico solta a seguinte frase “ain’t no man in this world who can pull me down from my dark star” seria incapaz de deixar qualquer pessoa se intrometer em suas ideias. E aí fica fácil entender porque essa é uma obra feita para um período muito específico.

O que me aproximou do disco logo de cara, antes da sonoridade, foi a forma como ela produziu uma massa uniforme (com um jeitão a Alex Turner). Mesmo já completamente engolido pelo álbum tive que voltar muitas vezes a ele para perceber a diferenças entre as faixas. Por isso é muito natural que o crítico mais apressado passe direto por Give You the Ghost. É um disco para quem está disposto a encontrar algo válido lá pela vigésima audição. E talvez nem aí.

Eu mesmo, que encontrava um disco irregular sempre que ouvia, quase decidi largá-lo e ir a álbuns que me arremessam ideias mais escancaradas (o do Cloud Nothings por exemplo, me parece mais contemplativo, feito de uma paisagem mais clara). Fiz bem em não desistir desse pequeno grande álbum, pois ele tem muito a oferecer. Por exemplo, só fui reparar a beleza do drumroll de Lay Your Cards Out lá pela décima-quinta audição. Leva tempo.

A montagem dificulta em muito perceber como, apesar da aparência carente das canções, a grande maior delas possuí uma minúsculo fluxo de contraste. O auto-tune está em toda parte ajudando ainda mais a mitificar a nossa heroína, Blá-blá. É ele que dá a todas frases uma nivelação semelhante à dos sons quase tímidos que surgem entre a mixagem.

Em I See My Mother o modificador de voz torna o canto de Blá-blá num manho choroso, enquanto a vocalista narra um conto adolescente. Na seguinte, um sintetizador sci-fi lança Blá-blá num viagem intergalática (é uma herança dos videogames?), enquanto o auto-tune crava a voz dela como um faca na melodia. Em Wandering Star é quase um mantra, um choro rítimico. O uso desse recurso aqui deve ser um dos mais inventivos até então. A ideia é nunca ser apenas um recurso, mas um catalisador da interpretação de Blá-blá.

O que é Give You the Ghost afinal de contas? Eu o leio como um conto dark sobre uma menina que ao invés de cair no País das Maravilhas, acabou presa dentro de um videogame meio agressivo, proibido para menores de 18 anos: conteúdo gore e sexual. As canções se constroem com antigas melodias de synthpop empurradas por uma intensa carga de sensualidade R&B, podado por sensibilidade punk – e produzida por uma pessoa que entende uma coisa ou outra de soul-music e dream pop.

Mais do que qualquer coisa, ele é um disco de nicho que não causa aversão ou preguiça. Exatamente porque, diferente de uma banda que retoma categoricamente algum momento favorito da música, a personagem central dessa empreitada me parece mais interessante do que suas próprias escolhas. Blá-blá está sempre lá acima sentada na sua Estrela Negra. Soberana. Ela transparece as faixas, ela sobrevivem a percussão cruel que sempre acompanha os bits eletrônicos. Ela jamais larga as nossas mãos. Talvez esteja aí a explicação porque eu nunca me canso de voltar a esse pequeno, minúsculo, irrelevante, mas belíssimo disco misterioso.