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Kindred – Burial (Hyperdub, 2012)

Nunca visitei Londres, mas imagino que deva ser uma cidade fria, úmida e escura. Ao menos é assim que a vejo no mundo que criei a partir das minhas impressões. Claro, não foi uma imagem que surgiu do nada. Ela foi sendo montada ao longo dos anos, com as informações que fui juntando, sejam elas visuais (de fotos, da televisão, de filmes) ou meramente mitológicas (a herança cultural da cidade e os traços estereotipados dos cidadãos).

A minha Londres pode não der nada a ver com a real cidade, mas mesmo correndo o grande risco de decepcionar minha imaginação, não consigo deixar de me apegar à paisagem cinza e bela que construí. Essa ilusão particular tem o mesmo sabor de uma daquelas paixões inventadas, daqueles romance que somente germinam em análises pessoais do gestos de alguma pessoa. Apesar de histórias falsas, são pedaços de nós, fazem parte do que nós somos como seres humanos – animais capazes de imaginar o irreal.

Há algo de muito irreal no som do Burial. Isso, claro, está longe de ser novidade. Em 2007, Untrue nos introduzia à arte urbana da banda (e o nome entregava direitinho o conceito da sua arte). De lá para cá muito pouco mudou no território criativo de William Bevan. Ele continua a fazer uma música que pode ser rotulada como dubstep ou future garage, mas que não consegue, acima de tudo, conviver com a distância do ano de 2007. Durante esse período, William pouco gravou (com exceção de alguns remixes e de dois EPs ano passado: Street Halo e uma colaboração com o Massive Attack). Foram obras que pouco avançaram a sonoridade caótica dele, mas que cumpriam o papel de exercitar um estilo de dono único.

Kindred, o novo EP, chega para continuar de onde Untrue parou. Ou melhor do que isso, ele chega para reinterpretar o som daquele disco. Antes o que tínhamos eram paisagens em miniaturas, fotoramas de ruídos e sons sexys acoplados delicadamente numa forma premeditada, quase organizada – ainda que muito distante do perfeccionismo do dubstep. Acontece que aqui, no novo, William parece compreender que a principal arma do Burial é a capacidade que o seu som tem de nos fazer compreender que o mundo de “dentro” é bem mais interessante do que o de “fora”.

O que ele faz é nos dar um ponto de partida (o murmúrio feminino da primeira faixa, o efeito eletrônico saltitante de Loner, os cacos de dance-music de Ashtray Wasp) para poder nos lançar a um passeio interminável, repetitivo, nada pop. As experiências de William são o exato oposto do que o James Blake faz com os fiapos de melodia que utiliza. Enquanto Blake nos apresenta o embrião emediatamente, o Burial vai cobrindo o caldo pop com muitos bits e interferências. É como se ele sempre buscasse desfocar a imagem que temos de um som familiar. Mas está ai o que me interessa no som do EP: estamos sempre oscilando entre o caos e o calor de um cacoete confortante.

Daí que acho ideal perceber que Kindred é tão significativo quanto Untrue para a discografia do Burial. Ambos nos botam em contato com a estranha capacidade que o dubstep tem de bipartir nossa experiência. São discos assustadores e belos, mundanos e bizarros, humanos e alienígenas. Untrue era um objeto estranho (e lindo) que nos fazia imaginar a Londres de William, ou ao menos a imagem que tempos de Londres. Kindred nos traz de volta aquela imagem, mas dessa vez tenho a perfeita impressão de que nos mexemos pelas vielas da cidade, posso ver luzes distorcidas e chuviscos. Estamos dentro de um sonho em degradê.