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Há quem diga que o uso constante de silêncio (e lerdeza, claro) na música seja apenas uma forma de esconder a falta de força que existe nos interlúdios e até nas próprias canções. A ambientação cuidadosa cria uma atmosfera melancólica demais para ser levada a sério. Por isso, o mais fácil a fazer diante de Kill for Love, é tratá-lo como um disco absolutamente ridículo. Uma longa viagem de mais de 1:30h de duração, editado para soar como uma massa uniforme, caminhando a passos (muito!) lentos por um cenário noturno, silencioso, frio. Os fãs de The XX entenderão direitinho, mas claro, haverá aqueles que julgarão a sensibilidade do Chromatics de ser somente um suspiro, um fundo musical. Som para fones de ouvidos, dizem as má-bocas.

O que percebo, quanto mais ouço este álbum, é como ele só funciona se ouvido do principio ao fim. Na geração internet, é um verdadeiro achado. Eu tinha minhas dúvidas se ainda existiam bandas que se dedicavam tão neuroticamente ao conceito da obra, sem tirar um riff sequer do lugar, comportando-se metodicamente. E o Chromatics é uma banda sim muito metódica. Talvez isso explique porque todos os textos sobre o disco logo sacam a comparação óbvia com o filme Drive (2011) de Nicolas Winding Refn. O personagem de Ryan Gosling mora em boa parte dessas canções.

(Para quem não sabe, a famosa sequência de fuga logo no princípio do filme, conta com uma trilha sonora feita pela banda. E é uma faixa que podia perfeitamente habitar este disco.)

Mais do que encontrar o personagem do filme, encontro duas construções dramáticas muito parecidas. Isso porque, assim como a interpretação frívola de Gosling para as escolhas sonoras de Refn, a banda se agarra a todo custo à própria mise-en-scéne. Ambos sabem que se por algum motivo deixarem aquele ambiente, toda a encenação desaparecerá. Estaremos falando de duas peças ridículas, infatilóides, sobre pessoas que escolheram a solidão por prazer auto-mutilador. “Everybody got a secret to hide” nos revela a narradora da faixa-título, é a frase mais óbvia do planeta Terra e que caberia direitinho no filme. São, portanto, clichês bem encenados. E claro, não deixa de ser tão violento quanto a cena do elevador, quando a mesma narradora nos avisa: “Oh but I killed for love”. O negócio, pelo menos na frente das câmeras, é muito sério.

Funciona como um exemplo muito bom de como um disco pode construir uma imagem para si. Enquanto alguns preferirão encontrar nele essa tal sensibilidade dos fones-de-ouvido (feita para um público que talvez nem exista mais), prefiro ver nele uma disposição cinematográfica. O que me confortaria em relação às longuíssima faixas de ambient-music, as repetições, os alongamentos de faixas que poderiam ter 3 ou 4 minutos. Mas ai novamente, é tudo questão de como você mergulha na história.

Running from the Sun seria apenas uma distorção vocal levada por um delicado piano, se não continuasse por mais cinco minutos indo e voltando, como quem espera que a música adormeça para a chegada da sequência. Seguimos nessa que deve ser minha parte favorita do disco, quando uma névoa de guitarras à The Cure vai criando clima para chegada de Birds of Paradise, o link direto deles com o The XX.

O momento em que percebemos que todo esse papo de cinema e música faz sentido para Kill for Love, aparece em There’s a Light Out On the Horizon, onde depois breve introdução repleta de sintetizadores oitentistas, ouvimos uma mensagem de voz gravada num dia chuvoso. É aí que o Chromatics parece sobrepor qualquer falta de risco que eles correm nas suas faixas. Aqui percebemos que a imersão feita por toda a construção do álbum não nos permite duvidar dos longos e estáticos passeios eletrônicos. Cada um deles faz sentido.

Surpreendente é voltar ao início do álbum e perceber que a banda abre com a faixa mais fúnebre possível, o cover de Into the Black do Neil Young. “Once you gone, you can never come back” nos dizem. A imagem é idêntica à que temos no fim de Drive. Um mergulho na escuridão da noite, na escuridão do personagem. A relação entre filme e álbum fica mais evidente: são ensaios sobre um casamento belíssimo que existe entre som e narração, entre sugestão e a melancolia em que existe na prolongação de um som qualquer ou de uma imagem em plano geral da cidade. É como observar o mar a noite. Indo e voltado. Um vazio danado promovido por um sentimento ridículo, mas nunca falso.

Kill for Love (2012) do Chromatics. 16 faixas, 77 minutos. Lançamento Italians Do It Better.