(Viskningar och rop, 1972) | Ingmar Bergman | A+

Doenças da alma ou físicas, as personagens de Gritos e Sussurros estão de alguma forma contaminadas com muito de si mesmas. Por isso, Bergman organiza o filme mostrando o monólogo de cada uma das irmãs. E aos poucos suas tensões particulares, seus limites emocionais, suas falsidades e suas exageradas verdades, vão nos arrastando para dentro de um ambiente (tanto físico como emocional) enclausurado, de uma casa claustrofóbica e avermelhada (que representaria, claro, o retorno ao útero).

É como se o sueco zerasse o placar a cada momento, nunca conseguimos entender exatamente qual face é real. Como Persona – Quando Duas Mulheres Pecam (1966), a aproximação das personagens faz com que ajam completamente diferente do usual – aqui ainda há a adição do medo repentino da morte. A própria escolha de atores parece indicar que Bergman buscava colocar em choque as diversas formas de pavor existencial que havia acumulado ao longo dos anos – três atrizes que não haviam atuado em filmes juntas com frequência, mas todas figuras importante dentro da filmografia do sujeito (Harriot Andersson, Ingrid Thulin e Liv Ullmann).

O resultado final é o seu filme mais forte em construção de imagens. Menos calcada num formato onírico, o que acabamos assistindo é uma breve peça sobre a impotência do ser humano perante a si mesmo: à morte, aos seus defeitos físicos, à suas ausências emocionais.

O que vejo são três personagens rastejando melancolicamente para as salas escuras de suas almas, presas as suas idiossincrasias e suas ideias estupidas de felicidade e companheirismo. O final não oferece-lhes uma saída (aparentemente, como acontecia em O Sétimo Selo, nem a morte apresenta respostas), apenas um suspiro de alegria, cristalizado num momento falso: uma manhã de verão, uma comum lembrança fermentada por anos de sofrimento. Mas uma alegria enfim.